Existe uma percepção muito clara e consolidada nos corredores do Itamaraty sobre o recente encontro entre Flávio Bolsonaro e Donald Trump nos Estados Unidos: a visita, vendida como um grande triunfo político, foi, na verdade, um imenso tiro no pé.
Ao acompanhar as análises da nossa diplomacia, constato que a tentativa de demonstrar prestígio internacional revelou apenas um cenário de profunda submissão, escancarado não apenas pela postura na fotografia oficial, mas por todo o contexto amador que orbitou a reunião.
A narrativa inicial construída pelos aliados do senador de que o encontro teria durado uma hora e quarenta minutos simplesmente não se sustenta diante do escrutínio diplomático. As informações concretas que o Ministério das Relações Exteriores possui não confirmam, nem de longe, essa duração prolongada.
O episódio serviu para desmistificar a ideia de exclusividade bolsonarista; se antes a relação com Trump parecia uma barreira intransponível para outros grupos políticos, hoje fica claro que o acesso ao ex-presidente americano se pulverizou e perdeu o caráter de privilégio irrestrito.
No entanto, o que gerou verdadeira perplexidade na diplomacia brasileira foi a forma como a comitiva tentou usar a estrutura do Estado para fins pessoais. Houve um pedido explícito para que Flávio Bolsonaro utilizasse as dependências da Embaixada do Brasil para realizar seus próprios eventos.
Para qualquer pessoa que compreenda o funcionamento das relações internacionais, esse é um pedido que rompe as fronteiras do bom senso e da legalidade institucional.
Uma embaixada não é uma extensão de um comitê de campanha. Para que um parlamentar utilize as instalações diplomáticas brasileiras no exterior, a requisição precisa partir formalmente do Senado Federal, configurando uma missão de Estado.
Jamais de um indivíduo isolado, ainda mais em uma visita com claros contornos eleitorais. Ceder a esse tipo de pressão abriria um precedente caótico, permitindo que qualquer político exigisse o uso de nossas embaixadas pelo mundo para suas agendas particulares.
O fato de esse pedido ter chegado à nossa representação diplomática demonstra a falta de pudor em violar as normas básicas de Estado — o famoso “o não a gente já tem”.
A conclusão do Itamaraty é cristalina: a viagem não teve peso de política externa. Foi um movimento isolado que, ao tentar forçar portas que deveriam ser tratadas com o rigor republicano, acabou expondo apenas a falta de compostura institucional de seus atores.
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