Imagine sentar-se à mesa para um chá da tarde, em uma cafeteria bem frequentada, movimentada, numa tarde de verão. A companhia: Gisele Pelicot. O assunto: como ela sobreviveu a dez anos de estupros cometidos pelo então marido e outros cinquenta homens. Caso você não tenha acompanhado o assunto no noticiário, foi isso que você entendeu: Dominique Pelicot, o homem com quem Gisele dividiu uma vida, a dopava com remédios fortíssimos e a oferecia a dezenas de outros homens.
Foi numa conversa entre amigas, sem pudor, e com a liberdade para tratar de qualquer assunto da vida, que me senti lendo “Um Hino à Vida”. O livro conta, em primeira pessoa, o horror vivido pela francesa, hoje com 71 anos. É um dos relatos mais brutais da história recente, documentado com um rigor de provas que é raro neste tipo de crime. Isso dá ao livro uma crueza necessária para o julgamento público.
Não é uma obra curta, mas li em um dia. Senti-me estranhamente próxima da autora. E com pressa para terminar, como se não pudesse deixá-la esperando. Ela estava ali contando a história dela, e o mínimo que eu podia dar-lhe, como agradecimento pela sua honestidade, era uma validação com o meu senso de urgência e a minha atenção para ouvir cada detalhe. “Um Hino à Vida” foi escrito com o apoio da jornalista Elsa Vigoureux, mas a voz de Gisele é tão nítida que o livro me lançou em um turbilhão de pensamentos que agora tento organizar.
Ah, escolho chamá-la de Gisele. Embora ela tenha decidido manter o sobrenome Pelicot para que o autor da barbárie – e não a sua família de origem – fosse o centro do escrutínio público, prefiro o primeiro nome. Talvez por ter me sentido próxima dela, talvez como forma de resgatar a mulher que existe para além do horror.
E é esse um dos principais recados do livro: existe uma mulher atrás daquela vítima. Gisele não se identifica com o corpo que foi violentado mais de 200 vezes. Do momento em que soube dos crimes, quando viu as imagens pela primeira vez na delegacia, à fase final do julgamento, na qual precisou assistir aos vídeos dos estupros, disse repetidas vezes que sabia que o corpo era dela, mas que não era ela que estava ali.
Apesar desse afastamento – uma forma de se proteger de tudo o que passou -, o livro é permeado por uma necessidade de busca por respostas. É perversa a condição da mulher-vítima. Em algum momento ela vai se sentir coautora ou vão constrangê-la ao ponto de ela ser colocada como tal.
Gisele se pergunta o que o marido pensava enquanto a olhava inconsciente e se ainda haverá oportunidade de questioná-lo sobre o que ela poderia ter “feito, dito ou simplesmente percebido”. Essa tentativa de não se perder da vida que viveu – foram mais anos de vida com o marido do que sozinha – fez com que ela escolhesse manter vivas as memórias felizes do casamento antes do abismo. Por isso, foi julgada. Inclusive pelos próprios filhos. Gisele escreve com dor que “os filhos raramente têm acesso ao que os pais foram antes deles”. Exigir que ela apague o próprio passado não seria mais uma forma de violência?
Gisele é cirúrgica ao descrever o “calvário que vivem as mulheres que denunciam um agressor e que contam apenas com sua boa-fé, sua coragem, seu corpo e sua memória ferida”. Ela entendeu no tribunal por que tantas vítimas não registram queixa: porque acabam na posição de acusadas. Mas ela decidiu que, desta vez, a vergonha precisava mudar de lado. 51 homens precisavam ser vistos. Eles é que deveriam se curvar. Não ela.
A naturalidade com que ela expõe o inferno que sua vida se tornou ao descobrir os crimes do marido ganha um sopro de leveza quando Gisele conta que se permitiu amar novamente. O processo ainda estava sendo conduzido pela Justiça quando ela se apaixonou. O tom do livro é tão intimista que, quando me dei conta, estava torcendo pela retomada do romantismo e, por que não, da vida sexual de uma mulher que teve a intimidade brutalmente violada pelo homem que ela amou. Saber que ela teve esperança e coragem de se abrir para um homem novamente, de se deixar ser abraçada, acolhida e cuidada em uma idade em que as mulheres são tidas pela sociedade como murchas, me inspirou.
É esse destemor inerente às mulheres, pulsante em todas nós, que desperta ao ouvirmos histórias como a de Gisele. Ela é uma das mulheres que só por existir, sem querer, obrigou a sociedade a evoluir. Isso me devolve o prazer de ser mulher, que é arrancado de mim quando me deparo com os horrores que vivemos, literalmente, desde sempre.
Historicamente, o silêncio era o único destino possível para as mulheres. Durante séculos reduziram as nossas vozes a zunidos, barulhos sem importância. Quem ousava tentar falar, era histérica e precisava ser calada a qualquer custo. Ainda hoje, para muitos, a nossa insistência em lutar por direitos básicos é vista como um exagero. Ou até algo que já deveria estar superado. Aí, o que fala mais alto, é a ignorância de quem não sabe que cada centímetro de liberdade que ocupamos foi arrancado à força.
Gisele Pelicot, uma mulher que durante a maior parte da vida só quis cumprir o papel de boa matriarca, buscou no próprio âmago uma bravura latente. Ao sentar-se à mesa para contar sua história, ela é de uma gentileza desconcertante com aqueles que tentaram sequestrar sua existência – mas não se engane: a doçura não anula a luta. Gisele escolheu viver e, assim, ocupou o espaço que o silêncio planejado por séculos tentou lhe roubar. E ao fazer a vergonha trocar de lugar, nos devolveu a todas nós o direito de sermos inteiras.