O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, admitiu conhecer Karina Ferreira da Gama, proprietária do Instituto Conhecer Brasil (ICB) — a organização no centro de uma investigação por suspeita de fraude e desvio de recursos públicos. Segundo Nunes, o contato se deu em eventos religiosos, mas ele afirmou não manter relação próxima com ela.
A investigação, conduzida pela 2.ª Delegacia de Crimes Contra a Administração Pública, Combate à Corrupção e Lavagem de Dinheiro, vinculada ao Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC), apura se verbas do contrato firmado entre a Prefeitura e o ICB foram usadas para financiar o filme “Dark Horse”, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Karina Gama também é sócia da produtora Go UP, responsável pela obra.
Ao ser questionado sobre a investigação, Nunes levantou a hipótese de perseguição política. Segundo ele, se a apuração tiver como pano de fundo o longa-metragem, o caso seria grave. Nas palavras do prefeito: “Se a motivação, conforme vocês estão me dizendo, é por conta do filme… ‘Então estou indo atrás de um contrato com a prefeitura de 2024 por causa do filme’, aí é grave. Aí é perseguição política.”
Sobre Karina Gama, Nunes disse: “Acho uma pessoa decente, uma mulher trabalhadora, uma mulher que, como qualquer outra, está batalhando e que conhece o Bolsonaro, né? Então está passando por isso”.
O contrato e as irregularidades
O acordo entre a Prefeitura e o ICB previa a instalação de 5 mil pontos de wi-fi gratuito em regiões periféricas da cidade, ao custo de R$ 108 milhões por ano. Com aditivos, o valor total chegou a R$ 157,1 milhões. Até agora, apenas 3.200 pontos foram instalados.
A disparidade de custos chama atenção. Enquanto a Prodam — empresa pública municipal — cobrava R$ 230 por ponto de internet e R$ 306 mensais de manutenção, o contrato com o ICB fixou o valor em R$ 1.800 por ponto. A diferença é de quase oito vezes.
O Tribunal de Contas do Município identificou pelo menos 20 irregularidades graves no edital de chamamento público — o processo pelo qual a Prefeitura selecionou a ONG. O chamamento ficou aberto por 30 dias sem receber impugnações ou propostas de outras entidades.
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Os números financeiros reforçam as suspeitas. A Prefeitura deveria ter desembolsado R$ 43 milhões pelo que foi efetivamente entregue, mas transferiu R$ 69 milhões ao ICB. A diferença — R$ 26 milhões — corresponde a pagamentos por serviços que não chegaram a ser prestados.
Na prática, isso significa que dinheiro público foi repassado sem a contrapartida prevista em contrato, o que pode configurar desvio de recursos, conforme apura a Polícia Civil.
Ex-secretário nega conhecer a investigada
O deputado federal Bruno Lima (Podemos), que ocupava a Secretaria Municipal de Tecnologia e Inovação quando o contrato foi assinado, afirmou nunca ter tido qualquer contato com Karina Gama. Segundo Lima: “Não a conheço. Nunca a vi na vida. Se passar na minha frente, não sei quem é.”
O ex-secretário também defendeu o mérito do projeto. Em nota, declarou: “Defendo o escopo do projeto, que é a instalação da rede wi-fi em favelas da cidade, onde vivem as pessoas que mais precisam deste serviço. Toda a parte contratual foi feita pelo corpo técnico da Secretaria.”
Lima ainda negou alinhamento com o bolsonarismo. Segundo ele: “Após o primeiro turno de 2022, tive a coragem de não apoiar Bolsonaro. E continuo não apoiando. Hoje estou em um partido ainda mais neutro [do que o Progressistas].”
A Polícia Civil cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços ligados a Karina Gama e também na sede da Secretaria Municipal de Tecnologia e Inovação. O caso segue sob investigação, com o Ministério Público acompanhando as apurações.
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