Wilson Pedroso
Wilson Pedroso Mais sobre o autor

Wilson Pedroso é sócio do instituto de pesquisas Realtime Big Data, executivo e consultor político com mais de 30 anos de experiência em campanhas eleitorais. Referência nacional na área, atuou na coordenação estratégica de campanhas majoritárias e proporcionais de importantes lideranças políticas, como João Doria, Bruno Covas e Marçal, com foco em planejamento, gestão e comunicação eleitoral. Ao longo de sua trajetória, também atua como mentor de candidatos, coordenadores e profissionais de marketing eleitoral, sendo reconhecido como um analista político experiente no setor. É autor do best-seller Vencer a Eleição, obra de referência na área. Atualmente, é analista do programa Link Business, da TMC.

Últimas colunas Últimas colunas de Wilson Pedroso

Quando o dinheiro entra em cena, a polarização perde força

Enquanto o brasileiro escolhia um lado e brigava nas redes sociais, Vorcaro transitava por vários deles

Por | Atualizado em
Poder, dinheiro
(Foto: Jeff Stapleton/Pexels)

Existe uma ideia muito repetida na política brasileira: a de que direita, centro e esquerda vivem em campos completamente separados.

Na prática, não é bem assim.

A polarização funciona nas eleições, nos discursos e nas redes sociais. Ela organiza o eleitor, mobiliza militantes e ajuda cada grupo a definir quem é o adversário.

Mas o dinheiro costuma circular por todos esses ambientes.

O Caso Master deixou isso mais claro.

Siga o canal da TMC no WhatsApp e receba as últimas notícias

Daniel Vorcaro manteve relações com personagens do governo, da oposição e do Congresso. Quando as primeiras revelações atingiram Flávio Bolsonaro e nomes ligados à direita, o governo passou a explorar o assunto politicamente.

Quando a Polícia Federal chegou a Jaques Wagner, líder do governo Lula no Senado, o tom mudou.
Vieram os pedidos de cautela, equilíbrio e respeito à presunção de inocência.

Nada de errado nisso. A presunção de inocência é uma garantia constitucional e deve valer para qualquer pessoa.

O problema é que, em Brasília, ela costuma ser lembrada com mais entusiasmo quando o investigado está do nosso lado.

Leia mais: Quando a Copa entra em campo, a política perde espaço

A oposição fez o movimento inverso.

Enquanto Flávio Bolsonaro aparecia nas notícias sobre Vorcaro, seus aliados tentavam tratar o caso como uma relação privada, sem maiores consequências políticas.

Quando Wagner virou alvo da operação, passaram a dizer que o Master havia chegado ao coração do governo.

Mudou o personagem. Mudou o discurso.

A reação foi praticamente a mesma.

Jaques Wagner nega ter recebido vantagens ou atuado em favor do banco. Flávio Bolsonaro também nega irregularidades. Ciro Nogueira, citado em outra etapa do caso, rejeita qualquer participação ilegal.

Busca policial não é condenação. Relação pessoal não é prova de crime. Uma conversa também não demonstra, sozinha, que houve alguma contrapartida.

Mas o quadro político já é incômodo.

Direita, centro e esquerda, que se apresentam ao eleitor como forças incapazes de dividir a mesma mesa, aparecem orbitando o mesmo grupo financeiro.

Isso não transforma todos em culpados. Transforma todos em personagens que precisam dar explicações.

O que aparece por trás dessa história é algo muito conhecido em Brasília: a construção de acesso.
Um empresário não precisa ter um partido. Precisa ter portas abertas.

Conversa com quem governa, mantém relação com quem faz oposição e procura interlocução com quem controla o Congresso.

Um conhece o senador. Outro fala com o ministro. Um terceiro chega ao regulador. Alguém apresenta, alguém marca a reunião e alguém leva o recado.

É assim que o poder funciona fora do palanque.

Enquanto o brasileiro escolhia um lado e brigava nas redes sociais, Vorcaro transitava por vários deles.
A polarização servia para organizar o debate público, mas não impedia a circulação dos interesses privados.

O PT tentou transformar o Master em um problema do bolsonarismo. A oposição agora tenta colocar o banco dentro do governo Lula.

O centro, como de costume, procura reduzir a temperatura quando percebe que a investigação pode se aproximar demais.

Cada grupo escolhe o trecho da história que mais prejudica o adversário e tenta esconder o pedaço que causa desconforto dentro de casa.

Em “O Leopardo”, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, a elite muda a aparência das coisas para preservar aquilo que realmente importa.

No Caso Master, mudam os discursos, os alvos e a indignação.

A lógica de proteção continua.

A pergunta importante não é saber se o banco era de esquerda ou de direita.

É entender como uma instituição cercada de problemas conseguiu construir tanto acesso político antes de sua liquidação.

Houve pressão sobre autoridades? Alguma decisão pública foi tomada para atender a interesses privados? Existiu atuação parlamentar ou facilitação institucional em troca de vantagens?

Essas respostas só podem vir de documentos, datas, valores e atos concretos. Sem isso, existem relações politicamente constrangedoras. Não existe condenação.

A investigação precisa avançar sem torcida.

Quem cobrou rigor contra o adversário terá de aceitar o mesmo rigor quando a investigação chegar ao aliado. Quem pediu respeito às garantias de um amigo terá de reconhecer essas garantias quando o alvo estiver do outro lado.

O Caso Master deixou uma lição simples.

A polarização separa o eleitor.

O poder costuma aproximar os interesses.

Ao vivo
São Paulo
Ouça a TMC pelo Brasil
  • 100,1FM São Paulo
  • 101,3FM Rio de Janeiro
  • 100,3FM Curitiba
  • 88,7FM Belo Horizonte
  • 92,7FM Recife
  • 100,1FM Brasília
Notícias que importam para você
Copyright © 2026 CNPJ: 44.060.192/0001-05