À medida que as eleições se aproximam, os políticos descobrem novamente o povo. É sempre emocionante assistir a esse milagre democrático. De repente, pessoas que passaram anos blindadas por gabinetes, seguranças e carros oficiais começam a falar da angústia de quem pega ônibus, atravessa rua escura e volta para casa com medo.
A novidade agora é a esquerda tentando falar de segurança pública. E isso produz certo estranhamento porque, durante muito tempo, a sensação foi a de que parte da esquerda olhava para o crime quase como consequência inevitável da sociedade, enquanto a direita oferecia a solução primitiva de sempre: baixar o sarrafo.
O sujeito comum, que perdeu celular, salário, filho ou tranquilidade, não pensa em teoria social quando é assaltado. Ele quer sobreviver. Quer voltar vivo para casa. E tende naturalmente a escutar quem promete proteção, ainda que essa promessa seja simplória, brutal ou eleitoralmente oportunista.
O Brasil convive há anos com uma criminalidade endêmica. Facções crescem, o narcotráfico se fortalece e o Estado parece, em muitos lugares, apenas uma lembrança burocrática. Nesse ambiente, segurança pública vira ativo eleitoral valioso. Medo dá voto. Sempre deu.
Por isso, quando políticos mudam repentinamente o discurso para parecerem preocupados com violência urbana, a sensação inevitável é a de oportunismo. O eleitor pode até não dominar estatísticas, mas percebe quando uma convicção nasce de princípios e quando nasce do desespero eleitoral.
No fim, o circo democrático continua funcionando porque a política aprendeu há muito tempo que medo mobiliza mais do que esperança.
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