Na coluna de hoje, vou repercutir um assunto bastante polêmico e recente, que está entre o bizarro, o engraçado e o trágico. Envolve o Rio de Janeiro, inteligência artificial e a China.
O que aconteceu foi o seguinte: o Rio de Janeiro, por meio da IplanRio, a empresa municipal de tecnologia e informática, anunciou o desenvolvimento de um LLM, ou seja, um grande modelo de linguagem, como os utilizados em ferramentas como o ChatGPT. O modelo foi chamado de Rio Open 3.5 e, segundo o próprio governo, já estaria entre os melhores do mundo em benchmarks. Vale destacar que essas avaliações não vieram de fontes independentes; foi o próprio governo quem fez essa afirmação.
O anúncio ganhou bastante repercussão. O prefeito do Rio publicou na rede X que o projeto representava um avanço na soberania tecnológica brasileira e demonstrava que a inteligência artificial não estava mais restrita aos bilionários estrangeiros, mas também à capacidade tecnológica do povo carioca.
Segundo o anúncio, o modelo seria disponibilizado ao público e teria custado cerca de R$ 500 mil para ser desenvolvido, o que também foi apresentado como um grande feito.
O único problema é que, pouco depois, pesquisadores chineses apareceram desmentindo praticamente toda a história. Segundo eles, o modelo era, na verdade, uma espécie de “Frankenstein”, combinando dois modelos chineses de código aberto: aproximadamente 60% de um e 40% de outro. E alguém simplesmente esqueceu de dar os devidos créditos.
As análises mostraram uma correlação superior a 99% entre os modelos chineses e aquilo que estava sendo apresentado como uma criação inédita. Na prática, tratava-se de uma cópia ou adaptação sem o devido reconhecimento das fontes.
A polêmica ganhou ainda mais força porque o anúncio aconteceu logo após o Web Summit Rio, um dos principais eventos globais de inovação e tecnologia.
Depois da repercussão, veio uma nota oficial afirmando que houve um mal-entendido, que a divulgação teria sido feita de forma precoce e que aquela era apenas uma versão intermediária do projeto, ainda não concluída. O problema é que essa explicação só apareceu depois que os chineses fizeram o desmentido.
É claro que o Brasil precisa participar da corrida da inteligência artificial e desenvolver competências nessa área. Mas, obviamente, não dessa maneira.
Outro ponto importante é o custo. Os R$ 500 mil anunciados teriam sido destinados ao desenvolvimento do projeto. No entanto, especialistas estimam que uma simples combinação de modelos já existentes, seguida de um processo conhecido como fine-tuning, que consiste apenas em calibrar ou adaptar um modelo pré-treinado, custaria menos de R$ 25 mil.
Ou seja, nenhum modelo foi treinado do zero. Nenhum modelo foi efetivamente desenvolvido desde o início, até porque isso exige investimentos bilionários, algo que hoje apenas as grandes empresas de tecnologia conseguem fazer.
No fim das contas, o que estava sendo apresentado como um modelo brasileiro inédito era, na realidade, uma adaptação de modelos de código aberto já existentes.