O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi colocado sob curatela em decorrência de complicações do Alzheimer. A fase avançada da doença, que afeta milhões de brasileiros, vai muito além da perda de memória: ela redefine completamente a rotina do paciente e transforma o cotidiano das famílias envolvidas. Mas quais são as características do Alzheimer avançado e quais medidas e cuidados são necessários para lidar com essa fase da doença?
O estágio mais grave do Alzheimer é marcado pela perda profunda de autonomia. O paciente deixa, aos poucos, de realizar atividades básicas, desde se alimentar até manter a higiene pessoal, passando a depender de cuidados contínuos.
Segundo o geriatra Dr. Natan Chehter, clínico geral e membro da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), esse declínio é um dos sinais mais característicos da última fase da doença.
“A doença de Alzheimer em fase avançada costuma comprometer de forma muito séria as atividades do dia a dia. A pessoa perde a capacidade de se alimentar sozinha, de fazer higiene pessoal, de tomar banho, de se vestir. Ela acaba perdendo a independência para esse tipo de tarefa.”
Além dos impactos cognitivos, o corpo também começa a falhar. Funções orgânicas básicas são prejudicadas, e tarefas automáticas se tornam cada vez mais difíceis.
“A pessoa acamada fica mais propensa a feridas na pele. E quem tem dificuldade para engolir pode ter pneumonias, porque a comida pode ir para o caminho errado”, explica.
O caso de FHC trouxe à tona justamente essa etapa da doença, em que as complicações físicas se tornam frequentes. Pneumonias aspirativas, infecções recorrentes e perda de mobilidade são alguns dos desafios enfrentados.
Diante desse cenário, famílias se veem obrigadas a tomar decisões delicadas. Em alguns casos, adaptar a dieta pode não ser suficiente para evitar engasgos, o que leva à discussão sobre sondas e outras formas alternativas de alimentação. Mas nem sempre há um caminho óbvio.
“Muitas vezes, chega-se a uma fase em que é preciso decidir o que é importante para essa pessoa. Quais eram os valores dela? O que ela comunicou em vida sobretratamentos invasivos ou sobre onde gostaria de passar seus últimos momentos?”, afirma Chehter.
Esse tipo de escolha não é apenas médica, mas também afetiva, familiar e profundamente pessoal. O geriatra reforça que cada caso é único e que a trajetória do paciente deve ser respeitada.
“Não existe uma receita única. O mais importante nessa fase é priorizar a melhor qualidade possível do tempo que a pessoa ainda tem.”
Enquanto o país acompanha a situação do ex-presidente, especialistas lembram que o Alzheimer avançado exige não apenas cuidado clínico, mas acolhimento, adaptação e decisões que preservem a dignidade do paciente. Um desafio que milhares de famílias brasileiras enfrentam todos os dias.




