Arthur Igreja
Arthur Igreja Mais sobre o autor

Arthur Igreja é especialista em Tecnologia e Inovação. TEDx speaker e autor do livro “Conveniência é o Nome do Negócio”. Certificações executivas em Harvard e Cambridge. Atuação profissional em mais de 25 países. Anualmente, ministra mais de 150 palestras no Brasil, América do Sul, EUA e Europa. Ele é Masters em International Business pela Georgetown University (EUA), Masters of Business Administration pela ESADE (Espanha) e Mestrado Executivo em Gestão Empresarial pela FGV. Pós-MBA e MBA pela FGV.

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O que a Ford nos ensina sobre os limites da inteligência artificial

Ao recontratar engenheiros veteranos para corrigir falhas, a montadora reforça que experiência e julgamento humano continuam sendo indispensáveis

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(Foto: REUTERS/Rebecca Cook)

A decisão da Ford de recontratar mais de 350 engenheiros veteranos depois de apostar fortemente na automação traz uma reflexão importante sobre o momento que estamos vivendo com a inteligência artificial.

Na prática, a empresa reconheceu que superestimou a tecnologia. Acreditou que bastaria informar à IA quais eram as demandas dos projetos e qual nível de qualidade esperava alcançar para que ela conduzisse todo o processo. Mas as falhas começaram a aparecer. E isso aconteceu por um motivo simples: inteligência artificial não acumula décadas de experiência da mesma forma que um profissional.

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Quando esses engenheiros voltaram à empresa, aqueles que a própria Ford brincou serem os “engenheiros de barba branca”, os resultados melhoraram rapidamente. O padrão de qualidade subiu e a montadora voltou a liderar uma tradicional pesquisa de qualidade nos Estados Unidos, algo que não acontecia havia 16 anos.

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Há uma frase da própria Ford que resume muito bem essa história: o sistema pode ser incrível, a inteligência artificial pode ser incrível, mas ela é tão boa quanto as pessoas responsáveis por treiná-la e supervisioná-la.

Acredito que essa seja uma excelente oportunidade para reduzirmos um pouco o clima de pânico que se criou em torno da inteligência artificial. Existe uma percepção de que ela já se tornou capaz de substituir completamente o trabalho humano. Não é isso que tenho visto na prática.

Quem tenta fazer absolutamente tudo com IA ainda está vivendo aquela fase inicial de deslumbramento que acompanha toda grande inovação tecnológica. Isso não é novidade. No fim dos anos 1990, quando a internet começou a ganhar força, muita gente dizia que seria o fim das lojas físicas e dos shopping centers. Estamos em 2026 e, no Brasil, praticamente nove em cada dez compras continuam sendo realizadas presencialmente. O mundo não acabou por causa do comércio eletrônico e também não vai acabar por causa da inteligência artificial.

Isso não significa minimizar o potencial da IA. Muito pelo contrário. Existem aplicações extraordinárias. Um exemplo é preservar o conhecimento de profissionais altamente especializados. Há empresas utilizando inteligência artificial para registrar a experiência de controladores de voo muito experientes. Antes, quando esses profissionais se aposentavam, boa parte desse conhecimento era perdida. A IA pode funcionar como um repositório desse conhecimento e como uma ferramenta de apoio extremamente valiosa.

É justamente aí que está seu maior valor: auxiliar pessoas, organizar informações, preservar conhecimento e ampliar capacidades.

O problema começa quando se acredita que a inteligência artificial pode tomar as mesmas decisões que um ser humano simplesmente porque processa uma grande quantidade de dados. Delegar esse tipo de responsabilidade à tecnologia, sem supervisão humana, beira a negligência e a falta de sabedoria.

O caso da Ford mostra que experiência, contexto e julgamento continuam sendo ativos insubstituíveis. A inteligência artificial pode acelerar processos e aumentar a produtividade, mas seus melhores resultados aparecem quando trabalha ao lado das pessoas, e não no lugar delas.

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