A produção nacional da terapia celular CAR-T pode reduzir significativamente os custos do tratamento e facilitar sua incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS), segundo o hematologista Phillip Scheinberg, líder da Hematologia da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo. Desenvolvido por um consórcio formado pela Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto, Instituto Butantan, Nutera, BP e com apoio do Ministério da Saúde, o produto brasileiro está em fase avançada de estudos clínicos.
Hoje, as terapias comerciais de CAR-T custam entre US$ 400 mil e US$ 450 mil por paciente, o que limita sua adoção em sistemas públicos de saúde. Para Scheinberg, a produção nacional representa uma oportunidade para reduzir essa dependência de tecnologias importadas.
“A produção nacional tem o potencial de tornar uma tecnologia de altíssima complexidade mais acessível no Brasil, ampliando o acesso de pacientes que tenham indicação adequada para esse tratamento.”
Segundo o especialista, o projeto vem sendo desenvolvido há mais de uma década e segue um modelo semelhante ao adotado pela Espanha, que implementou uma terapia CAR-T desenvolvida em ambiente acadêmico a um custo inferior ao dos produtos comerciais.
Antes de chegar ao SUS, porém, o tratamento ainda precisa concluir os estudos clínicos, comprovar segurança e eficácia e passar pela avaliação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Paralelamente, será necessário preparar hospitais e equipes médicas para oferecer a terapia.
“Será fundamental investir na capacitação e no treinamento dos centros brasileiros que irão avaliar e acompanhar esses pacientes. Isso é essencial para garantir a indicação correta e que o produto chegue ao paciente certo, no momento certo.”
A BP já participa de iniciativas de capacitação de centros transplantadores por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS (Proadi-SUS), experiência que poderá ser expandida para a terapia CAR-T.
Resultados preliminares animam pesquisadores
Embora os dados ainda não tenham sido publicados em revistas científicas nem apresentados em congressos, Scheinberg afirma que os resultados iniciais são promissores.
“Até o momento, o tratamento tem demonstrado um perfil de segurança favorável e sinais de eficácia muito semelhantes aos observados nos estudos que levaram à aprovação das primeiras terapias CAR-T pelas principais agências regulatórias internacionais.”
Apesar do otimismo, ele ressalta que será necessário concluir o acompanhamento dos pacientes para confirmar a durabilidade das respostas e a segurança do tratamento em longo prazo.
Indicação é restrita a casos específicos
Atualmente, a terapia CAR-T é indicada para pacientes com alguns tipos de linfoma de células B, leucemia linfoblástica aguda de células B em pacientes de até 25 anos e mieloma múltiplo. Em geral, o tratamento é destinado a pessoas cuja doença voltou após outras terapias ou deixou de responder aos tratamentos convencionais.
“O CAR-T é reservado para pacientes que apresentaram recaída ou refratariedade. Nesses casos, a terapia celular representa uma estratégia capaz de superar mecanismos de resistência desenvolvidos pelas células tumorais.”
Segundo o hematologista, a indicação deve ser individualizada e feita por equipes especializadas, considerando o histórico clínico e o potencial benefício para cada paciente.
Avanço também pode beneficiar doenças autoimunes
Além do tratamento de cânceres hematológicos, a terapia celular vem apresentando resultados promissores em doenças autoimunes graves, como lúpus, artrite reumatoide, esclerose sistêmica, algumas vasculites e doenças inflamatórias intestinais.
“Os estudos clínicos realizados até o momento têm demonstrado resultados impressionantes, com remissões profundas e duradouras em pacientes que já haviam esgotado as opções terapêuticas disponíveis.”
De acordo com Scheinberg, há casos de pacientes com lúpus grave que permanecem em remissão por cerca de cinco anos sem necessidade de imunossupressores contínuos.
“Em vez de apenas controlar a atividade da doença, o CAR-T pode promover uma reprogramação do sistema imunológico, interrompendo o processo autoimune de forma muito mais profunda.”
Embora a plataforma brasileira tenha sido desenvolvida inicialmente para doenças hematológicas, o especialista afirma que ela poderá, no futuro, ser adaptada para essas novas indicações.
Mudança de paradigma na oncologia
Para Scheinberg, a terapia celular representa uma das maiores transformações recentes no tratamento do câncer.
“A resposta curta é ‘sim’. A terapia CAR-T representa uma verdadeira mudança de paradigma no tratamento do câncer.”
Ele explica que a principal inovação é oferecer uma alternativa para pacientes que já não respondiam aos tratamentos disponíveis.
“Em uma parcela significativa dos pacientes, já se discute inclusive a possibilidade de cura, algo que seria inimaginável anteriormente diante da resistência aos tratamentos convencionais.”
Segundo o hematologista, as taxas de remissão prolongada variam entre 40% e 60% em pacientes com doenças hematológicas refratárias, grupo que antes tinha expectativa de vida bastante limitada.
Apesar dos avanços, ele ressalta que os melhores resultados ainda se concentram em leucemias, linfomas e mieloma múltiplo. Nos tumores sólidos, as pesquisas seguem em andamento, mas ainda não demonstraram benefícios comparáveis aos observados nas doenças hematológicas.
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