“Como superar a marcação do Fluminense?” A chamada para um vídeo inusitado dentro dos padrões tradicionais de conteúdo no futebol na Flamengo TV chocou boa parte da comunidade no X (Twitter) durante o sábado. Na véspera da final do Carioca, o vídeo que se propôs a analisar a tática do jogo com a ajuda do perfil @FalsoNove2 provocou debates como o exemplificado abaixo entre Felipe Silva, da ESPN, e Antonio Tabet, atualmente sócio da holding Ola Sports.

O jornalista alegou que esse tipo de conteúdo poderia ser mais privativo. Seu argumento, porém, foi rapidamente desarmado por Tabet: quando TVs de clube têm a pretensão de virarem canais mais amplos, “não podem deixar de fazer conteúdo assim”.
O Exposed Tático, nome do quadro, foi ao ar pela primeira vez em novembro, propondo-se a debater justamente o clássico diante do Fluminense pelo Campeonato Brasileiro.
Até agora, são 11 vídeos publicados na Flamengo TV. A análise do rival São Paulo na estreia do Brasileirão deste ano é o que acumula maior audiência até o momento: 98 mil views. Além de gerar comentários do tipo “conteúdo melhor que 99% da mídia esportiva tradicional e até da Internet” e “esse é o tipo de conteúdo que mais deveria ser assistido.”
A chancela dos torcedores valida a pré-disposição para inovar em meio a um mercado otimizado, principalmente, para topo de funil com virais em redes sociais.
O clube rubro-negro vem há um tempo tentando descobrir como funciona o YouTube. Não por acaso, ocupa uma posição de destaque a nível global.
Na quinta, Dawid Prokopowicz, ao analisar a estratégia da Serie A na plataforma, divulgou um ranking que mostra os canais de futebol com mais inscritos no YouTube. A Flamengo TV, com seus 7,9 milhões, ocupa a 12ª posição do top 15 mundial, à frente de UEFA e Chelsea, e se aproximando de Premier League e Manchester City.

Ao oferecer um conteúdo típico de programas esportivos das TVs tradicionais, o Flamengo ratifica o que venho mostrando nos últimos dois anos: à medida que organizações se tornam produtoras de conteúdo omnicanal informadas por dados, elas precisam mudar sua mentalidade de uma perspectiva de marketing para uma de plataforma de mídia.
Encarar o esporte como uma plataforma de entretenimento reflete o que Doug Shapiro define como uma mudança perene da atenção do consumidor para a cauda do conteúdo independente e para longe dos canais e pontos de venda tradicionais.
A conversa polemizada no X sobre a aposta arrojada do Flamengo coincidiu com o lançamento do The Arsenal, a plataforma própria de streaming do clube inglês que promete programação exclusiva.
Conforme detalhou a RadioTimes na quinta, o canal foi apresentado com os primeiros episódios de três novas séries exclusivas – The Link Up, The Big Match e Modern Leader – e um vídeo de lançamento que conta com a participação de Mikel Arteta, jogadores do passado e do presente, e diversos torcedores do Arsenal, incluindo os atores Asa Butterfield (Sex Education) e Aaron Pierre (Lanterns).
Ao analisar a empreitada, Simon Lane trouxe alguns pontos relevantes. Destaco aqui dois que ajudam a dimensionar o movimento. O primeiro envolve uma crítica histórica ao patrocínio esportivo em ativos tradicionais como placas de publicidade e camisas: a dificuldade de mensuração.
Em ambientes digitais, essa limitação desaparece. Os clubes passam a mostrar aos patrocinadores exatamente quantas pessoas estão consumindo o conteúdo e quem são essas audiências. Um exemplo já aparece no The Arsenal: um dos formatos originais da plataforma, The Big Match, um programa de namoro, é patrocinado pela L’Oréal.
“A tendência é que mais marcas participem diretamente da criação desses formatos. Não seria surpresa ver também parceiros de tecnologia do clube integrados a esse tipo de produção, como o Google Pixel”, escreveu Lane.
A segunda observação diz respeito aos dados. Parte do motivo pelo qual muitos clubes ainda não conhecem profundamente suas audiências é que as informações permanecem fragmentadas em diferentes plataformas e departamentos. Iniciativas diretas ao consumidor ajudam a resolver esse problema.
Caso o Arsenal compartilhe parte desses aprendizados, dentro do que for permitido, a própria Premier League pode se beneficiar, especialmente agora que também avança em sua estratégia DTC. Métricas como taxa de início de conteúdo, taxa de conclusão e níveis de engajamento podem oferecer uma leitura muito mais precisa sobre como os torcedores consomem conteúdo.
Em um cenário de alta fragmentação da mídia e da atenção, controlar a narrativa que ressoa com seu público torna-se essencial para entender a propriedade intelectual como uma plataforma própria.
Já mostrei aqui como PGA, Tottenham, Juventus, Manchester City, Barcelona e La Liga seguem a estratégia de grandes marcas que estão consolidando seus estúdios proprietários.
Como bem colocou Tabet, isso será normalizado em breve nos esportes. E o Flamengo sinaliza que está caminhando na mesma direção.