Bastidores do poder: “Aos 56 anos me livrei da vírgula de filha do presidente”, diz Luciana Temer

Aos 56 anos, advogada e ex-delegada relembra atuação na gestão Haddad durante o turbilhão do impeachment, detalha o “ônus” familiar com cargos públicos e explica como as dinâmicas de poder operam na violência sexual

Por Redação TMC | Atualizado em
Luciana Temer nos estúdios TMC durante a gravação do podcast "Imprevista"
"A violência sexual sempre implica em relações de poder, que podem ser mais violentas ou mais sedutoras", explica Luciana Temer ao explicar propósito do Instituto Liberta (Crédito: TMC)

Transitar pelos corredores do poder público sendo a filha primogênita de um dos políticos mais influentes da história recente do país traz privilégios, mas cobra um preço alto em escrutínio e desconfiança. Em entrevista ao videocast Imprevista, a advogada, professora e ex-delegada Luciana Temer abriu os bastidores de sua relação com a política e o desafio de construir uma identidade desvinculada do ex-presidente Michel Temer.

Ao relembrar o período tenso em que assumiu a Secretaria de Assistência Social de São Paulo na gestão de Fernando Haddad (PT), no ápice do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, ela resumiu a pressão de carregar o sobrenome no meio do fogo cruzado e a necessidade de se provar tecnicamente:

“Eu entrei na secretaria porque eu era filha do Temer na visão das pessoas. Mas eu passei a estar ali apesar de ser filha do Temer”.

O ônus da faixa presidencial

Longe do glamour imaginado pelo senso comum, Luciana garante que a proximidade com a cadeira mais importante da República trouxe muito mais cobranças do que regalias para o núcleo íntimo familiar.

“Eu e minhas irmãs ficamos com o ônus de ser filhas do presidente. Eu nunca tive um passaporte diplomático, por exemplo. As pessoas ficavam na fila e falavam: ‘Mas você não tem passaporte diplomático?’. E por que eu teria?”, questiona.

Para ela, a maturidade trouxe a alforria política e profissional.

“Aos 56 anos eu finalmente começo a ser a Luciana Temer, não a Luciana Temer, vírgula, filha do presidente Michel Temer. Alguma hora a gente tinha que se livrar dessa vírgula”, celebra, ressaltando, no entanto, o profundo orgulho que sente da trajetória do pai. Segundo a professora, foi em casa que aprendeu a principal lição sobre a máquina pública e a vaidade humana.

“O meu pai é uma das poucas pessoas que eu conheço que soube se relacionar a vida inteira com o poder. Ele sempre entendeu que o poder era algo que ele ocupava transitoriamente. E foi assim que ele nos ensinou.”

Poder, silêncio e abuso

Essa compreensão cirúrgica sobre como o poder opera, atravessa diretamente o trabalho que Luciana realiza hoje à frente do Instituto Liberta, voltado ao enfrentamento da violência sexual contra crianças e adolescentes. Ela analisa que, assim como nos bastidores de Brasília as pessoas frequentemente personalizam os cargos como se fossem donas deles, a violência sexual se sustenta numa perversa assimetria de forças e posse.

“A violência sexual sempre implica em relações de poder, que podem ser mais violentas ou mais sedutoras”, explica a especialista.

A própria vivência de Luciana como vítima de estupro durante um assalto aos 27 anos, e de importunação sexual aos 13, a ajuda a dimensionar a barreira do silêncio que cerca o tema. Mesmo sendo advogada e ex-delegada na época do crime mais grave, ela não denunciou por constrangimento, sentimento que entende ser mil vezes pior nas crianças vítimas de abuso, que acabam manipuladas a sentir culpa por seus agressores.

“Não precisa ser um homem rico ou poderoso. A relação de poder se dá com o pai e a filha, com o tio, com o pastor, com o adulto e a criança. Existe uma cultura secular permissiva com o uso do corpo de crianças e de mulheres, uma autorização implícita.”

Privilégio e responsabilidade

Com passagens marcantes pela polícia civil (como titular de uma Delegacia de Defesa da Mulher em Osasco) e pela gestão pública, Luciana reconhece que o “chão de fábrica” destruiu a “bolha” de privilégios em que cresceu. Branca, vinda da elite paulistana e sem deficiências, ela reflete sobre o papel de quem está no topo da pirâmide e assiste à barbárie.

Para ela, a inércia não é opção. “A gente não tem que ter culpa social, a gente tem que ter responsabilidade social. Culpa e responsabilidade são coisas diferentes”, crava. “Você pode ter culpa e ficar presa na sua casa sem fazer nada. A responsabilidade social é o que te diz: ‘Eu tenho esse privilégio todo, o que eu faço a partir daí?'”, conclui a advogada, provando que, muito além do sobrenome herdado, seu legado vem sendo construído pelas batalhas que escolheu lutar.

Veja na íntegra o programa Imprevista, com Joana Treptow, no YouTube ou em seu tocador de podcasts favorito.

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