O Ibovespa encerrou a sessão desta terça-feira (24/03) com uma leve alta de 0,32%, aos 182.509,14 pontos, registrando um ganho de 577,21 pontos.
O pregão foi marcado por uma volatilidade extrema: o índice iniciou o dia em queda, refletindo o pessimismo global e a cautela com a política monetária doméstica, mas conseguiu migrar para o terreno positivo sustentado pelo peso das exportadoras de matérias-primas.
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O grande fiel da balança no dia foi a divulgação da ata do Copom, referente à decisão que cortou a Selic para 14,75%. O documento foi interpretado pelo mercado como mais hawkish (rigoroso) do que o comunicado da semana anterior, jogando “água fria” nas apostas de cortes mais agressivos no curto prazo.
O Banco Central deixou claro que a continuidade e a profundidade do ciclo de quedas dependem agora de variáveis externas voláteis, como o câmbio e o preço do petróleo.
Segundo Rodolpho Sartori, economista da Austin Rating, a autoridade monetária agiu com cautela diante do cenário de guerra. “A ata veio em linha com o que se esperava mesmo, ela veio uma ata mais serena, talvez até um pouco mais dura. O ponto é que a situação é realmente delicada e o Copom tem sido paciente“, analisa Sartori.
Ele destaca que a principal preocupação do colegiado é a desancoragem das projeções: “Eles demonstram bastante preocupação em relação às expectativas de inflação que desancoraram. Elas já estão para cima de 4,1% e o teto da meta é 4,5%. A continuidade da guerra talvez leve essas expectativas para bem perto do teto“, reforça o economista.
Fatores internos e o mercado de trabalho
A ata também trouxe alertas sobre a resiliência da economia brasileira, que, embora ajude na atividade, dificulta o controle dos preços. Sartori observa que “a política fiscal tem continuado bastante ativa e o mercado de trabalho segue muito resiliente, com a massa salarial em alta e o desemprego em baixa. Esse mercado de trabalho tão forte ainda tem surpreendido de forma geral“.
Para o economista da Austin Rating, o BC acertou no tom: “Nós achamos que eles acertaram de ter um tom um pouco mais duro para poder realmente mostrar que estão de olho em tudo que tem acontecido. Quanto antes o cenário externo melhorar, mais fácil vai ser a vida do Copom“.
O estrategista Bruno Perri, da Forum Investimentos, complementa que a ata “colocou uma interrogação quanto à continuidade, mas principalmente quanto à profundidade e duração do ciclo de cortes“. Esse posicionamento pressionou as empresas sensíveis aos juros, como Rumo, Localiza e Direcional, além do setor elétrico (Engie e Taesa), que fecharam o dia no campo negativo devido à abertura da curva de juros.
Commodities e geopolítica
Se por um lado os juros pressionaram o índice para baixo, as commodities garantiram a alta final. O petróleo Brent voltou a superar os US$ 90 (aproximando-se dos US$ 100 em picos de estresse), impulsionado pelo recrudescimento das tensões após ataques iranianos e a negação de Teerã sobre diálogos diretos com Washington.
Esse movimento beneficiou diretamente as ações da Petrobras (PETR4) e da Prio (PRIO3).
Além das petroleiras, o setor de mineração (Vale e CSN Mineração) subiu com a combinação de minério de ferro resiliente e dólar valorizado. O setor de proteínas, representado por Minerva e Marfrig, também pegou carona na alta da moeda americana para fechar o dia no azul.
Segundo Fernando Bresciani, analista de investimentos do Andbank, o cenário externo pressionou o mercado local, com a alta do petróleo e do gás ditando o ritmo. Bresciani ressalta que a Petrobras, que subia forte pela manhã, chegou a oscilar com a volatilidade da commodity, enquanto a Vale recuou levemente acompanhando o minério, embora este siga em patamar elevado.
Dólar
O dólar comercial encerrou o dia em alta de 0,25%, cotado a R$ 5,253. A moeda operou de forma errática, atingindo a máxima de R$ 5,280 durante o pregão, funcionando novamente como um porto seguro diante da aversão ao risco global.
Bruno Shahini, especialista da Nomad, explica que a alta reflete a incerteza sobre a desescalada no Oriente Médio. “A ausência de sinais concretos de negociação entre EUA e Irã levou o mercado a reprecificar um cenário de conflito mais prolongado. Isso reacende preocupações inflacionárias e pressiona os rendimentos dos Treasuries, o que fortalece a moeda americana“, pontua.
Para ele, os dados recentes de PMI global já indicam uma combinação perigosa de crescimento fraco com inflação alta, o que dá suporte ao dólar tanto no exterior quanto no Brasil.
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