O colunista Jamil Chade conversou com os apresentadores Felipe Bueno e Joana Treptow sobre a situação do Oriente Médio. O tema central foi o cessar-fogo de 10 dias entre Israel e Hezbollah, mediado pelos Estados Unidos, que entrou em vigor durante a madrugada de anteontem. O presidente Donald Trump anunciou o acordo.
Confrontos entre as partes foram registrados na manhã seguinte à entrada em vigor do cessar-fogo. O Hezbollah denunciou violação ao acordo. Israel afirmou que as operações contra o Hezbollah continuarão. O cessar-fogo não representa o final completo da violência. Houve redução da violência, mas não é possível afirmar que existe paz.
Anúncio antecipado de Trump gera crise no governo israelense
A imprensa israelense noticia que Donald Trump se antecipou ao anunciar o cessar-fogo. Trump havia informado Benjamin Netanyahu sobre o acordo. Pelos protocolos do governo israelense, Netanyahu precisaria retornar ao país e reunir seu gabinete antes de qualquer anúncio oficial. Donald Trump anunciou o cessar-fogo antes que Netanyahu pudesse informar seus ministros.
Os ministros do governo de Benjamin Netanyahu ficaram sabendo do cessar-fogo por uma postagem de Donald Trump. Os ministros ficaram irritados com Netanyahu. A situação acontece em ano eleitoral em Israel. Netanyahu prometeu erradicar a ameaça do Hezbollah, mas não teve a oportunidade de informar seus próprios ministros sobre o cessar-fogo.
O governo de Israel é formado por uma coalizão com outros partidos. Essa composição sempre representou um problema nas negociações. A situação gerou desconforto para o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.
Há quem afirme que a antecipação de Donald Trump não foi apenas uma atravessada, mas uma forma de forçar Israel a entrar no acordo. A manobra teria sido uma exigência para que Israel aceitasse os termos do cessar-fogo. O governo americano agiu com receio de que Israel rejeitasse o acordo. A intervenção de Trump no processo foi interpretada por observadores como uma imposição ao governo israelense, que se viu pressionado a aceitar os termos do acordo sem margem para recusa.
A atuação de Trump levanta questionamentos sobre suas motivações políticas. O presidente publicou uma foto de si mesmo representado como Jesus Cristo. A imagem posteriormente foi removida. Estudiosos que acompanham Trump desde sua entrada na política debatem se suas decisões seguem uma estratégia de marketing calculada ou se refletem comportamento errático. Trump, empresário extravagante antes de se tornar político, mantinha proximidade com Jeffrey Epstein. A dúvida persiste sobre se suas atitudes visam projetar determinada imagem ou se carecem de intencionalidade clara.
Durante 10 dias na China, chineses questionaram um visitante ocidental sobre a veracidade das ações de Trump. As indagações refletem a perplexidade internacional diante do fenômeno político que representa o governo americano atual.
O governo dos Estados Unidos opera pautado pelas redes sociais e por uma lógica de negócios. Segundo a imprensa americana, Trump enriqueceu ainda mais durante seu primeiro ano como presidente.
Os Estados Unidos exercem influência determinante sobre questões ambientais, nucleares, armamentistas, oscilações dos mercados mundiais, combate à pobreza e distribuição de medicamentos. Um cientista político na China afirmou que “grandes países precisam de pessoas que saibam a dimensão eh do seu da sua tarefa”.
Contraste com otimismo de 1993
A situação atual contrasta com o otimismo de 13 de setembro de 1993. Naquela data, o então presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, intermediou um encontro entre Isaac Rabin, primeiro-ministro de Israel, e Yasser Arafat, líder da autoridade palestina. Bill Clinton apareceu de braços abertos na Casa Branca em foto icônica que simbolizava esperanças de paz no Oriente Médio. A imagem dos três ficou marcada como símbolo de uma época considerada mais otimista em relação ao conflito no Oriente Médio.
O acordo firmado naquele momento rendeu aos líderes israelense e palestino o prêmio Nobel da Paz. Durante as negociações que antecederam o encontro, o governo americano organizou a logística de forma que palestinos e israelenses ficassem em alas separadas do local. Rabin utilizava um banheiro e Arafat outro.
A CIA coletava a urina de ambos os líderes. A coleta não tinha apenas interesse biológico, mas visava verificar se eles possuíam saúde suficiente para manter o acordo que Israel e Palestina assinariam nos dias seguintes. A preocupação era garantir que os líderes tivessem condições de permanecer tempo suficiente no poder para que o acordo pudesse vingar.
O otimismo gerado pelo acordo de 1993 não se concretizou conforme esperado. Isaac Rabin foi assassinado posteriormente. O assassinato interrompeu o processo de paz que havia sido iniciado. O episódio ilustra como a história do conflito no Oriente Médio contrariou as expectativas daquele período. A fotografia do aperto de mãos entre Rabin e Arafat, com Clinton ao centro de braços abertos, permanece como registro de um momento em que havia esperança de paz na região.