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Âncora de destaque no jornalismo nacional, Joana Treptow, com seu estilo espontâneo, traz uma visão humana e técnica sobre os fatos que moldam o cotidiano. Versátil e dinâmica, sua cobertura abrange desde grandes crises até tendências sociais e culturais.

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A vitrine do crime

O perigo de ídolos que validam estereótipos e entregam a periferia de bandeja para o estigma

Por Joana Treptow | Atualizado em
MC Poze do Rodo
MC Poze do Rodo (Foto: Reprodução/Instagram/MC Poze do Rodo)

A prisão de MC Poze do Rodo e MC Ryan SP, em uma operação da Polícia Federal que investiga lavagem de dinheiro, não chegou a surpreender. Os sinais nunca foram discretos. Quem olhou com atenção para o padrão de vida, as mansões e os carros de altíssimo valor, incompatíveis até com os artistas mais bem-sucedidos, já se perguntou de onde vinha tanto dinheiro. É uma dúvida que também recai sobre outros presos na mesma investigação, como Raphael Souza, dono da “Choquei”, e Chrys Dias, que não tem profissão definida — se é que ser dono de perfil pode ser considerado uma profissão.

A diferença é que, no funk, há um produto: música. Existe entrega, demanda e mercado. No caso dos outros dois, não havia nada disso. E, ainda assim, ostentavam uma vida que pouquíssimos poderiam ter. Fazer fortuna não é fácil. Além desse dinheiro ilícito, em comum entre os funkeiros e os “sem-profissão aparente”, está a adoção de uma narrativa mística para sustentar o luxo: a de que foram escolhidos para “vencer”. É assim que se vendem e ampliam sua influência.

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Enriquecer e ostentar não é crime. A indústria do funk movimenta milhões de forma legítima. Mas a superação é uma coisa, servir de vitrine para o crime organizado é outra. Não há mensagem de “vencedor” que mascare isso. O jovem que está na favela, muitas vezes, não faz essa distinção. O jovem que busca uma saída vê os cordões de ouro e os carrões, e passa a se inspirar num modelo onde o crime e a música se tornam uma coisa só.

E isso pesa porque a cultura da periferia sempre foi vista com desconfiança. Durante muito tempo, o Brasil insistiu em olhar para fora, ignorando o que nascia aqui dentro em bolhas elitistas. Hoje, a nossa identidade não desce mais de cima para baixo; ela nasce na favela, mas essa leitura que valoriza o Brasil profundo ainda não é a regra. Por isso, a nossa cultura segue marginalizada.

Por isso o dano não é só à imagem dos presos. Eles, celebridades, que são referência para milhões, que representam um movimento, reforçam estereótipos em episódios de prisão ou violência. O caso de MC Ryan SP, filmado agredindo a mãe de sua filha, é o exemplo da normalização do absurdo. Quando um ídolo desse porte comete um crime e continua sendo celebrado, qual é a mensagem que fica?

Isso não significa que o crime seja exclusividade da periferia. Mas quando o crime se confirma no funk, o que acontece, ainda que não vejam com clareza, é uma traição aos seus.

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