Jamil Chade
Jamil Chade Mais sobre o autor

Nome de referência no jornalismo internacional, Jamil Chade é jornalista e escritor, com vasta experiência em coberturas globais. Como correspondente internacional, analisa as forças que regem a política mundial, com foco especial nas Nações Unidas e nos temas urgentes que definem as relações entre as grandes potências.

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O valor da cobertura de conflitos armados: 230 profissionais morrem em Gaza

Enquanto acompanho os desdobramentos dessas conversas de alto nível, fica claro que não se pode negociar uma paz duradoura ignorando o silenciamento sistemático daqueles que narram o conflito

Por Jamil Chade | Atualizado em
O jornalista Jamal Al-Gharabi, da Al Mayadeen, segura um colete de imprensa ao lado de um carro destruído por um ataque israelense que matou os jornalistas libaneses Fatima Ftouni, repórter da Al Mayadeen, e Mohammed Ftouni, cinegrafista, e Ali Shaib, repórter da Al Manar (Foto: Reuters)
O jornalista Jamal Al-Gharabi, da Al Mayadeen, segura um colete de imprensa ao lado de um carro destruído por um ataque israelense que matou os jornalistas libaneses Fatima Ftouni, repórter da Al Mayadeen, e Mohammed Ftouni, cinegrafista, e Ali Shaib, repórter da Al Manar (Foto: Reuters)

Hoje, em Washington, Israel e Líbano sentam-se à mesa — sem relações diplomáticas formais, mas sob a urgência de um cessar-fogo — para tentar transformar dez dias de trégua em um mês de diplomacia. No entanto, o que paira sobre este encontro não são apenas termos técnicos ou fronteiras, mas o peso moral da morte de mais uma colega jornalista no exercício da profissão.

Em um cenário onde a informação é frequentemente o primeiro alvo, as negociações nos Estados Unidos enfrentam o desafio de transpor o trilho militar para o diplomático enquanto o mundo observa um dado estarrecedor: o exército israelense foi responsável por dois terços das mortes de profissionais de imprensa no mundo no último ano.

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O objetivo central desta reunião em solo americano é a extensão da trégua anunciada na semana passada. O Líbano solicita um mês adicional para que as partes possam encontrar um caminho de paz que evite o retorno imediato das hostilidades.

A escolha de Washington como sede não é meramente simbólica; é uma necessidade logística. Dado que a ausência de relações diplomáticas entre as duas nações impede que o diálogo ocorra em seus próprios territórios. Contudo, o ambiente diplomático está profundamente tensionado por denúncias de crimes de guerra contra a imprensa.

O caso mais recente, que domina as discussões em Washington, envolve a morte de uma jornalista em território libanês. A versão do governo do Líbano é contundente: ela buscava refúgio em uma casa após ataques contra militantes do Hezbollah na região quando a residência foi atingida por forças israelenses.

Mais grave ainda é a acusação de que o exército de Israel teria bloqueado o acesso da Cruz Vermelha para o resgate dos feridos. Do outro lado, Israel nega ter jornalistas como alvo e contesta o bloqueio à ajuda humanitária, mantendo uma narrativa de defesa que colide frontalmente com os relatos de campo.

Para compreendermos a dimensão do problema, é preciso olhar para além do incidente isolado e analisar os números globais. Durante a guerra em Gaza, 230 jornalistas foram mortos. Se expandirmos o olhar para o último ano em todo o planeta, das cerca de 120 mortes de profissionais de imprensa registradas, dois terços têm o exército de Israel como responsável. Esse padrão de letalidade não é apenas uma estatística; é um obstáculo real à democracia e à transparência.

Enquanto acompanho os desdobramentos dessas conversas de alto nível, fica claro que não se pode negociar uma paz duradoura ignorando o silenciamento sistemático daqueles que narram o conflito. O sucesso da reunião de hoje dependerá da capacidade das delegações de colocar o processo no trilho diplomático, mas a credibilidade de qualquer acordo passará, invariavelmente, pela garantia de que a verdade e os seus contadores não sejam as próximas vítimas no campo de batalha.

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