O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) manifestou nesta quinta-feira (23) “preocupação” com o anúncio do presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, de que o país deixará de realizar eleições. Em nota divulgada pelo Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty), o Brasil pediu que as autoridades nicaraguenses garantam eleições livres, periódicas, plurais e transparentes.
O posicionamento brasileiro ocorre após Ortega declarar, durante um comício pelos 47 anos da Revolução Sandinista, no último domingo (19), que a oposição não voltará ao poder por meio das urnas. “Jamais, jamais, jamais”, afirmou o líder nicaraguense ao dizer que partidos ligados aos Estados Unidos e ao antigo regime dos Somoza não retornarão ao governo.
As próximas eleições presidenciais da Nicarágua estavam previstas para 2027. Ortega também acusou adversários políticos de tentar usar as eleições para tomar o poder.
Na nota, o Itamaraty ressaltou que “a realização de eleições livres, periódicas, plurais e transparentes é um dos esteios da democracia”, destacando que esse é um valor com o qual o Brasil mantém “profundo compromisso”.
O governo brasileiro também apelou para que as autoridades nicaraguenses assegurem ao povo o livre exercício do direito soberano de escolher seus governantes, reforçando a defesa dos princípios democráticos.
Relação entre Lula e Ortega se deteriorou
O posicionamento representa mais um capítulo do distanciamento entre os governos de Lula e Daniel Ortega. Apesar da histórica proximidade política entre o Partido dos Trabalhadores (PT) e a Frente Sandinista, as relações diplomáticas se deterioraram nos últimos anos.
Em 2024, os dois países protagonizaram uma crise diplomática após a expulsão do embaixador brasileiro na Nicarágua, em resposta à ausência do diplomata nas celebrações da Revolução Sandinista. O governo brasileiro reagiu com a expulsão da embaixadora nicaraguense, congelando, na prática, o diálogo diplomático.
Antes desse rompimento, Lula chegou a minimizar críticas internacionais ao longo período de Ortega no poder, defendendo que cada país possui autonomia para definir seu sistema político e comparando a permanência do líder nicaraguense no cargo ao tempo de governo de líderes democráticos europeus.
Reações internacionais
As declarações de Ortega também provocaram críticas da Organização dos Estados Americanos (OEA) e de líderes internacionais. No poder de forma ininterrupta desde 2007, o presidente nicaraguense promoveu mudanças na Constituição, ampliou o controle sobre as instituições do Estado e reprimiu a oposição política ao lado da vice-presidente e primeira-dama, Rosario Murillo.
No Brasil, parlamentares da oposição resgataram declarações antigas de Lula sobre Ortega para criticar a relação histórica entre os dois líderes, enquanto o governo brasileiro passou a adotar uma posição pública de defesa da realização de eleições livres na Nicarágua.




