A nomeação de Darren Beattie como enviado especial de Donald Trump ao Brasil não é um mero detalhe burocrático, mas uma manobra diplomática calculada e uma afronta direta a Brasília.
Ao contornar a necessidade de aprovação do governo brasileiro para um embaixador oficial, Washington impõe às relações bilaterais uma figura ligada à supremacia branca que, há poucas semanas, teve o seu visto cancelado por mentir ao Itamaraty na tentativa de visitar Jair Bolsonaro na prisão.
Na prática, a escolha entre designar um embaixador e um enviado especial define o tom atual da relação entre os dois maiores países do hemisfério ocidental. Pelas regras da diplomacia global, a nomeação de um embaixador exige o “agrément” — o consentimento formal do país anfitrião.
Fica evidente que o governo brasileiro jamais aprovaria as credenciais de um personagem misógino, que flerta abertamente com o racismo e possui um histórico extremista. Sem a via tradicional, a Casa Branca optou por enviar um emissário, impondo a sua presença sem se submeter ao crivo diplomático do Brasil.
Quem é Darren Beattie?
Para entender a gravidade dessa indicação, é preciso olhar para o passado de Beattie. No primeiro mandato de Trump, ele ocupava a cadeira estratégica de redator de discursos do presidente. A sua queda, no entanto, não ocorreu por divergências políticas com o líder americano, mas porque a imprensa revelou a sua participação em eventos de grupos supremacistas brancos nos Estados Unidos.
Demitido à época por conta do escândalo, ele retorna agora empoderado e com os olhos voltados para a América do Sul. O primeiro embate dessa nova configuração ocorreu de forma ruidosa recentemente. Beattie solicitou um visto de entrada no Brasil alegando, oficialmente, que participaria de uma conferência sobre minerais críticos.
A farsa caiu por terra quando se descobriu que o seu verdadeiro objetivo era visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro, atualmente preso. Diante da mentira documentada no pedido oficial, o governo brasileiro agiu como manda o protocolo e cancelou o visto.
Nos bastidores da diplomacia, a leitura é de que Beattie guardou uma profunda mágoa desse episódio, e o flerte com retaliações nos próximos meses já é uma realidade com a qual teremos de lidar. O que observo a partir dessa nomeação é o desenho de um cenário alarmante: teremos de conduzir as relações bilaterais com um governo onde a mentira é institucionalizada e onde os emissários tratam fatos e protocolos não como regras de convivência, mas como obstáculos a serem implodidos.