O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva prepara um pacote para enfrentar o endividamento das famílias, com anúncio previsto para o dia 1º de maio, no Dia do Trabalhador.
A proposta inclui uma nova versão do programa Desenrola Brasil, com ampliação do alcance e possibilidade de descontos maiores para consumidores com o nome negativado.
Entre as medidas em estudo estão:
- a oferta de crédito mais barato;
- o uso de garantias públicas para reduzir juros;
- portabilidade de crédito;
- incentivo ao consignado;
- e ações de educação financeira, com o objetivo de evitar a reincidência do endividamento.
A iniciativa ocorre em um contexto de pressão crescente sobre o orçamento das famílias, tema que já aparece de forma recorrente em pesquisas recentes e que passou a ocupar posição central na agenda econômica e política do governo. A avaliação nos bastidores é de que há urgência em apresentar respostas concretas, especialmente diante do impacto direto no custo de vida e do peso do tema em um cenário pré-eleitoral.
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Apesar da expectativa de anúncio nos próximos dias, o desenho final do programa ainda enfrenta entraves jurídicos e operacionais. O principal ponto de tensão envolve o uso do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) como instrumento na renegociação das dívidas.
Entre as alternativas debatidas, estão tanto a utilização direta de uma parcela limitada do saldo do trabalhador – em torno de até 20% – quanto o uso indireto do fundo como garantia para operações de crédito. Nesse segundo modelo, o FGTS funcionaria como uma espécie de lastro para os bancos, reduzindo o risco de inadimplência e, consequentemente, permitindo a oferta de juros mais baixos nas renegociações.
Esse mecanismo, no entanto, levanta questionamentos relevantes. Do ponto de vista jurídico, há dúvidas sobre a viabilidade e os limites desse uso. No campo político, o receio é de que a medida seja interpretada como uma transferência de recursos do trabalhador para o sistema financeiro, o que poderia gerar desgaste para o governo.
A crítica se intensifica ao considerar que o FGTS é uma reserva de longo prazo, enquanto o problema do endividamento é, em grande medida, de curto prazo – o que levanta dúvidas sobre a efetividade estrutural da solução.
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Diante desse cenário, o Planalto tem reavaliado as alternativas. Há a possibilidade de que o uso do FGTS, tanto direto quanto indireto, seja retirado do modelo final, deixando a renegociação mais concentrada na relação entre bancos e devedores.
Ainda assim, integrantes do governo indicam que nenhuma decisão está fechada e que todas as hipóteses permanecem em discussão. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, segue em negociação com instituições financeiras para tentar construir um formato que seja, ao mesmo tempo, viável do ponto de vista jurídico, atrativo para os bancos e eficaz para os consumidores.
O desafio central é encontrar um equilíbrio entre risco e retorno nas operações. Sem uma garantia robusta como o FGTS, a tendência é que o custo do crédito permaneça elevado, o que pode limitar o alcance do programa. Por outro lado, a inclusão do fundo exige um desenho cuidadoso para evitar distorções e resistências políticas.
A definição desse modelo deve ocorrer nos próximos dias, quando o governo pretende apresentar oficialmente o pacote e detalhar os instrumentos que serão utilizados para tentar aliviar o peso das dívidas no orçamento das famílias.