A palavra fundamental para entender o que se passa nos corredores do poder internacional hoje é uma só: chantagem. Donald Trump, fiel ao seu estilo, avança um passo e recua dois, mas sempre com a mesma lógica transacional.
O novo episódio de sua ofensiva global ocorre no centro da Organização das Nações Unidas, onde o governo americano sinaliza que está disposto a voltar a pagar suas contribuições financeiras. Mas há uma condição inegociável: a ONU precisa frear a influência da China.
Não se trata de uma negociação comum. Trata-se da mais básica intimidação: “Ou essa entidade é minha e eu continuo mandando nela, ou vocês vão ficar sem meu dinheiro”.
Para entender o peso dessa ameaça, é preciso olhar para o retrovisor. No início de seu governo, Trump congelou todos os repasses para a ONU. Vale lembrar: não se trata de uma escolha voluntária. Se um país faz parte do clube, ele tem a obrigação de pagar a anuidade.
Ao cortar os fundos, os Estados Unidos jogaram a ONU em uma crise inédita. A entidade foi obrigada a reduzir 18% do seu quadro de funcionários entre 2025 e 2026, resultando na demissão de centenas de pessoas.
Mais trágico do que o corte de pessoal é o impacto na ponta da linha. Programas sociais pelo mundo inteiro foram mutilados, deixando populações vulneráveis sem acesso a alimentos e remédios.
É sobre essa terra arrasada que os diplomatas americanos, em reuniões recentes em Genebra e Nova Iorque, colocaram a proposta na mesa. A ONU, mergulhada em uma crise profunda, encontra-se agora em uma encruzilhada histórica. De um lado, a salvação financeira; do outro, a rendição à exigência de cortar a influência de Pequim. Aceitar a condição imposta é atestar que a chantagem funciona.
O desprezo pelo Congresso e a guerra no Irã
O atropelo institucional de Trump não se restringe à comunidade internacional. Ele também joga pesado dentro de casa. O presidente pretende ignorar o prazo legal de 60 dias para pedir ao Congresso americano mais tempo ou encerrar a guerra iniciada contra o Irã em 28 de fevereiro.
Esse conflito já começou fundamentado em duas violações profundas. A primeira, contra o direito internacional, ao atacar um país sem consultar ou obter o aval do Conselho de Segurança da ONU. A segunda, contra a legislação doméstica americana, que exige a aprovação do parlamento para ir à guerra. Exceto em casos de emergência imediata de defesa, o que impõe a necessidade de referendar a ação em 60 dias.
O impasse agora opõe o governo ao seu próprio Legislativo. Embora os republicanos tenham maioria, a base do partido elegeu Trump sob a promessa de tirar os Estados Unidos de guerras, e não o contrário.
Com eleições legislativas no horizonte, deputados e senadores republicanos enfrentam a cobrança dos eleitores. Eles estão divididos entre atender às bases, que rejeitam o conflito, e obedecer ao chefe do partido.
Diante do dilema, a sinalização de Trump é clara: ele pode simplesmente atropelar o Congresso americano. E, convenhamos, para quem acompanha a sua trajetória, isso não é nem um pouco surpreendente.