Jamil Chade
Jamil Chade Mais sobre o autor

Nome de referência no jornalismo internacional, Jamil Chade é jornalista e escritor, com vasta experiência em coberturas globais. Como correspondente internacional, analisa as forças que regem a política mundial, com foco especial nas Nações Unidas e nos temas urgentes que definem as relações entre as grandes potências.

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O mundo refém de Trump: entre a chantagem financeira na ONU e o desrespeito às leis da guerra

Com eleições legislativas no horizonte, deputados e senadores republicanos enfrentam a cobrança dos eleitores

Por Jamil Chade | Atualizado em
(Foto: REUTERS/Nathan Howard)

A palavra fundamental para entender o que se passa nos corredores do poder internacional hoje é uma só: chantagem. Donald Trump, fiel ao seu estilo, avança um passo e recua dois, mas sempre com a mesma lógica transacional.

O novo episódio de sua ofensiva global ocorre no centro da Organização das Nações Unidas, onde o governo americano sinaliza que está disposto a voltar a pagar suas contribuições financeiras. Mas há uma condição inegociável: a ONU precisa frear a influência da China.

Não se trata de uma negociação comum. Trata-se da mais básica intimidação: “Ou essa entidade é minha e eu continuo mandando nela, ou vocês vão ficar sem meu dinheiro”.

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Para entender o peso dessa ameaça, é preciso olhar para o retrovisor. No início de seu governo, Trump congelou todos os repasses para a ONU. Vale lembrar: não se trata de uma escolha voluntária. Se um país faz parte do clube, ele tem a obrigação de pagar a anuidade.

Ao cortar os fundos, os Estados Unidos jogaram a ONU em uma crise inédita. A entidade foi obrigada a reduzir 18% do seu quadro de funcionários entre 2025 e 2026, resultando na demissão de centenas de pessoas.

Mais trágico do que o corte de pessoal é o impacto na ponta da linha. Programas sociais pelo mundo inteiro foram mutilados, deixando populações vulneráveis sem acesso a alimentos e remédios.

É sobre essa terra arrasada que os diplomatas americanos, em reuniões recentes em Genebra e Nova Iorque, colocaram a proposta na mesa. A ONU, mergulhada em uma crise profunda, encontra-se agora em uma encruzilhada histórica. De um lado, a salvação financeira; do outro, a rendição à exigência de cortar a influência de Pequim. Aceitar a condição imposta é atestar que a chantagem funciona.

O desprezo pelo Congresso e a guerra no Irã

O atropelo institucional de Trump não se restringe à comunidade internacional. Ele também joga pesado dentro de casa. O presidente pretende ignorar o prazo legal de 60 dias para pedir ao Congresso americano mais tempo ou encerrar a guerra iniciada contra o Irã em 28 de fevereiro.

Esse conflito já começou fundamentado em duas violações profundas. A primeira, contra o direito internacional, ao atacar um país sem consultar ou obter o aval do Conselho de Segurança da ONU. A segunda, contra a legislação doméstica americana, que exige a aprovação do parlamento para ir à guerra. Exceto em casos de emergência imediata de defesa, o que impõe a necessidade de referendar a ação em 60 dias.

O impasse agora opõe o governo ao seu próprio Legislativo. Embora os republicanos tenham maioria, a base do partido elegeu Trump sob a promessa de tirar os Estados Unidos de guerras, e não o contrário.

Com eleições legislativas no horizonte, deputados e senadores republicanos enfrentam a cobrança dos eleitores. Eles estão divididos entre atender às bases, que rejeitam o conflito, e obedecer ao chefe do partido.

Diante do dilema, a sinalização de Trump é clara: ele pode simplesmente atropelar o Congresso americano. E, convenhamos, para quem acompanha a sua trajetória, isso não é nem um pouco surpreendente.

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