Guilherme Ravache
Guilherme Ravache Mais sobre o autor

Jornalista especialista em inovação, marketing e mídia com colaborações regulares na imprensa econômica. Com passagens por grandes redações nacionais, une sua expertise editorial à sólida experiência executiva, tendo atuado como diretor de agência e gerente sênior de comunicação em multinacionais. Atualmente, também é consultor digital e palestrante, focando em estratégias de influência, mercado e tendências de consumo.

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A jogada da GameStop: Revolução do e-commerce ou mais uma narrativa de mercado?

O mercado financeiro adora uma boa história, especialmente aquelas que envolvem reviravoltas improváveis

Por Guilherme Ravache | Atualizado em
Foto: Nick Zieminski \ Reuters

O mercado financeiro adora uma boa história, especialmente aquelas que envolvem reviravoltas improváveis. E nenhuma empresa recente encarna melhor esse espírito do que a GameStop. A varejista de jogos eletrônicos, que outrora flertou com a falência, acaba de lançar um novo capítulo em sua saga: uma oferta de US$ 55,5 bilhões para comprar o eBay.

O movimento, anunciado nesta segunda-feira (04/05), pegou o mercado de surpresa e gerou especulações: estaríamos diante do nascimento de um novo gigante capaz de rivalizar com a Amazon, ou apenas mais uma manobra especulativa?

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A proposta de US$ 125 por ação representa um prêmio de 46% sobre o valor médio pago pela GameStop desde que começou a adquirir, silenciosamente, uma fatia de quase 5% do eBay. O CEO da GameStop, Ryan Cohen, deixou claro ao The Wall Street Journal que enxerga um potencial inexplorado. “O eBay deveria valer – e valerá – muito mais dinheiro”, afirmou ele, projetando transformar o eBay em “algo que valha centenas de bilhões de dólares” e em um “concorrente legítimo da Amazon”.

A ambição de Cohen é grandiosa. Ele propôs ao conselho do eBay uma fusão para reduzir custos e aumentar lucros, apoiando-se na rede de 1.600 lojas físicas da GameStop nos EUA. No entanto, o elefante na sala é a matemática financeira dessa operação.

No programa TMC 360, o analista econômico Guilherme Ravache destacou o abismo entre os tamanhos das empresas.

“É uma empresa muito pequena comprando uma empresa muito grande e aí não está claro da onde vai vir esse dinheiro”, observou Ravache.

Enquanto a GameStop é avaliada em cerca de US$ 11,9 bilhões (pouco mais de US$ 12 bilhões, segundo Ravache), o eBay vale impressionantes US$ 46 bilhões, com a oferta chegando aos US$ 55,5 bilhões (ou 56 bilhões de dólares, nas palavras do analista).

“A GameStop tem 9 bilhões de dólares em caixa e o eBay vale muito mais que isso”, explicou Ravache. Como, então, a “pequena” GameStop engoliria o gigante eBay? O analista apontou que a engenharia financeira poderia envolver “fundos soberanos, fundos árabes” e o TD Bank, que supostamente entraria com “mais 20 bilhões de dólares”.

No entanto, o ceticismo é válido. A GameStop ficou famosa mundialmente por seu papel no fenômeno das “meme stocks”, onde investidores do Reddit impulsionaram suas ações, causando bilhões em prejuízos a fundos de short-selling de Wall Street — uma saga tão surreal que virou o filme Dinheiro Fácil, citado por Ravache. Desde então, a empresa “tem conquistado o mercado sempre com ações surpreendentes”, notou o analista.

É exatamente esse histórico que levanta dúvidas sobre as reais intenções da oferta.

“O mercado comenta que o negócio não passaria de uma jogada para inflar ações da GameStop ou para chamar atenção”, alertou Ravache. Ele ressalta que “no momento que o mercado vive muito de narrativas, muito de histórias em torno de ações que sobem, ações que caem… pode ser uma jogada aí para inflar o preço das ações”.

Se a GameStop conseguir o financiamento necessário, a fusão com o eBay criaria um híbrido intrigante de e-commerce e varejo físico, mas a promessa de desbancar a Amazon parece, por ora, um delírio otimista. A Amazon possui uma logística impenetrável e uma infraestrutura de nuvem que sustenta grande parte da internet.

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