O uso diário de telas está relacionado a níveis mais baixos de aprendizado durante a primeira infância, período que engloba os seis anos iniciais da infância. Segundo a pesquisa da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em parceria com a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal (FMCSV), as áreas mais afetadas são, respectivamente, o aprendizado com números, fala e leitura.
O uso das telas está disseminado na população com seis anos ou menos. De acordo com os pais ou responsáveis, 50,4% das crianças utilizam dispositivos digitais todos os dias e 11,4% das crianças participantes do estudo nunca ou quase nunca utilizam tais dispositivos.
As áreas mais afetadas foram a literacia e numeracia. No primeiro caso, consiste na compreensão oral, vocabulário e na consciência fonológica, que seria a manipulação de sons e linguagens. Já a numeracia faz referência à compreensão de medidas – muito ou pouco, por exemplo -, trabalho com os números e o reconhecimento de padrões.
Entre os outros aspectos afetados estão a memória e os domínios socioemocionais, como empatia, confiança e comportamento social. A idade média das crianças ouvidas pela pesquisa era 5 anos e meio, correspondente à etapa final da pré-escola.
“Esse é o primeiro estudo com uma análise robusta do tema, ainda que não tenha sido possível medir a quantidade de horas no uso de telas”, afirma Tiago Bartholo, pesquisador da UFRJ e um dos responsáveis pelo estudo.
Crianças estão longe dos livros
A maioria das famílias brasileiras (77%) incentiva a literacia em casa, com atividades que ajudam na identificação do alfabeto ou como falar, por exemplo. Porém, o incentivo à leitura é algo totalmente diferente, já que mais da metade delas não praticam a leitura de livros infantis ou conta histórias para seus filhos. Vale ressaltar, que 95% das crianças até 6 anos não frequentam bibliotecas.
“Nós lemos pouco para as nossas crianças, mas elas usam muitos dispositivos digitais sem fins educativos ou sem acompanhamento dos pais”, avalia Mariane Koslinsk, pesquisadora da UFRJ, também evolvida no levantamento.
Outro indicador relevante do estudo foi que, aproximadamente, 80% das crianças na primeira infância não realizam atividades secundárias ou de custo extra, como aulas de dança ou esportes. Em um cenário em a obesidade infantil afeta mais de três milhões de crianças menores de 10 anos, segundo o Ministério da Saúde, essa falta de incentivo ascende um alerta.
“Esses os impactos tem a ver com o presente, no desenvolvimento e na aprendizagem [cognitiva] das crianças, mas também tem a ver com o futuro delas, enquanto adultos. Já que doenças crônicas, como a diabetes, estão atreladas a epidemia de obesidade e com as despesas que o próprio governo vai precisar fazer”, afirma a diretora de políticas públicas da FMCSV, Marina Fragata.
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OCDE: Currículo pré-escolar precisa ser revisado
Além dos uso de telas, os níveis socioeconômico (NSE), como renda e situação de vulnerabilidade, também afetam o aprendizado de matemática. A diferença é de 21 pontos entre as crianças que fazem parte de famílias beneficiadas pelo Bolsa Família e aquelas que não estão enquadradas em situação de vulnerabilidade social.
Na avaliação da pesquisadora, existe um possível desequilíbrio entre os planos de alfabetização em contraste com o ensino à matemática.
“Tivemos várias políticas que apoiaram o desenvolvimento de professores na literacia [alfabetização], então, o quer precisamos são projetos similares para formação de professores no curso de pedagogia. O professor não vai conseguir integrar todos esses domínios se ele não sabe como a criança aprende matemática”, avalia Beatriz Abuchaim, gerente de políticas públicas da FMCSV.
O Brasil foi o único país a participar da pesquisa no continente americano. Foram ouvidas cerca de 2.600 crianças em três estados: São Paulo, Ceará e Pará. Desse público, 80% estavam matriculados em escolas públicas e mais de 60% se concentravam no interior dos estados.
O Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-Estar na Primeira Infância (IELS, na sigla em inglês) é uma avalição feita com 25 mil crianças de nove países: Inglaterra, Malta, Emirados Árabes Unidos, Arzebaijão, China, Coréia do Sul, Bélgica e Holanda.
*Atualizada às 14:22




