O Serviço Federal de Proteção da Rússia (FSO) ampliou as medidas de segurança do presidente Vladimir Putin. A mudança ocorreu nos últimos meses, segundo pessoas próximas ao líder russo em Moscou e uma fonte ligada aos serviços de inteligência europeus. O presidente está mais concentrado na guerra na Ucrânia e reduziu suas aparições públicas. A informação foi dada pelo Financial Times.
O FSO implementou novos protocolos de proteção. Putin passou a dedicar mais tempo em bunkers subterrâneos, onde acompanha operações militares. O presidente e sua família deixaram de frequentar as residências na região de Moscou e em Valdai, no noroeste do país. Ele está passando mais tempo em bunkers na área de Krasnodar, no sul da Rússia, trabalhando de lá há várias semanas.
Funcionários do círculo mais próximo do presidente, incluindo cozinheiros, fotógrafos e guarda-costas, foram proibidos de usar transporte público. Eles também não podem portar telefones celulares ou dispositivos com acesso à internet perto de Putin. Sistemas de vigilância foram instalados nas casas desses funcionários.
Agentes do FSO agora realizam verificações em larga escala com a ajuda de unidades caninas. Esses agentes estão posicionados ao longo das margens do rio Moscou, prontos para reagir em caso de ataques com drones. A mídia estatal usa imagens gravadas para projetar normalidade.
Temores de golpe e ataques com drones
A preocupação do Kremlin com um golpe de Estado ou uma tentativa de assassinato, especificamente envolvendo drones, intensificou-se a partir de março. “O choque da Operação Teia de Aranha da Ucrânia ainda persiste”, disse ao Financial Times uma pessoa familiarizada com Putin. No ano passado, drones ucranianos atacaram aeródromos russos.
Os receios em relação à segurança foram alimentados pela prisão do então líder venezuelano, Nicolás Maduro, pelos Estados Unidos em janeiro, disse uma segunda pessoa também familiarizada com o presidente. Pessoas na Rússia que conhecem Putin disseram que os recentes cortes de internet em Moscou também estão, pelo menos em parte, relacionados à segurança do presidente e à proteção contra drones.
O isolamento de Putin aumentou nos últimos anos, particularmente desde a pandemia de Covid-19. A partir de março de 2026, a preocupação do Kremlin com tentativas de assassinato intensificou-se. Putin reduziu suas visitas e as verificações de segurança para pessoas que se encontram com ele pessoalmente foram ainda mais intensificadas.
Putin determinou que o FSO assumisse a segurança de dez generais de alta patente da Rússia. A decisão foi tomada após uma reunião na qual Alexander Bortnikov, chefe do FSB (serviço federal de segurança), culpou o Ministério da Defesa pela falha na proteção dos principais militares russos.
Até então, apenas Valeri Gerasimov, chefe do Estado-Maior, contava com tal nível de proteção. Agora, três generais adjuntos de Gerasimov também passaram a receber proteção especial do FSO.
De acordo com uma pessoa próxima à inteligência europeia, representantes dos serviços de segurança, em uma reunião com o presidente no final do ano passado, culparam-se mutuamente pelas falhas na proteção dos principais militares da Rússia, incluindo o assassinato de Fanil Sarvarov, um tenente-general, o mais recente de uma série de ataques ligados à Ucrânia.
Alexander Bortnikov, chefe do FSB, o serviço federal de segurança, culpou o Ministério da Defesa, que, ao contrário de outras agências, não possui uma unidade dedicada à proteção de altos funcionários. Viktor Zolotov, chefe da Guarda Nacional e ex-guarda-costas de Putin, negou a responsabilidade, mencionando recursos limitados.
Concentração na guerra
Uma pessoa próxima a Putin afirmou que o presidente passa a maior parte do tempo focado no conflito militar. “Putin passa 70% do seu tempo administrando a guerra e os outros 30% reunindo-se com [alguém como] o presidente da Indonésia ou tratando da economia”, disse a fonte. A única maneira de obter mais acesso é “fazendo mais guerra”, acrescentou.
Autoridades não relacionadas à guerra terão audiência com Putin apenas uma vez a cada poucas semanas ou meses. O presidente se tornou mais distante dos assuntos civis, realizando reuniões diárias com oficiais militares sobre detalhes operacionais.
Pesquisas de opinião financiadas pelo governo e por institutos independentes mostram que os índices de aprovação de Putin caíram para o nível mais baixo desde o outono de 2022. Naquela época, ele anunciou uma mobilização parcial, levando centenas de milhares de jovens a fugir do país.
Viktoria Bonia, blogueira radicada em Mônaco, publicou um vídeo de 18 minutos dirigido a Putin no mês passado. Ela disse que “as pessoas têm medo dele”. Embora Bonia tenha deixado claro que não se opõe ao regime, a repercussão do vídeo obrigou o Kremlin a reconhecer que o havia visto. O vídeo recebeu mais de 1,5 milhão de curtidas.
Após o discurso de Bonia, Putin abordou publicamente as repressões à internet pela primeira vez, instando as autoridades a “informarem os cidadãos” adequadamente e a não “se concentrarem apenas em proibições”.
Putin fez sua segunda aparição pública do ano em 27 de abril, visitando uma escola de esportes em sua cidade natal, São Petersburgo. O Kremlin divulgou um vídeo mostrando Putin em uma breve conversa com um grupo de meninas de collant preto durante a visita a São Petersburgo, ao final da qual ele beija uma delas na testa.
“Um sinal claro de que Putin está preocupado com a queda em seus índices de aprovação: ele está beijando crianças em público novamente”, disse Farida Rustamova, fundadora do boletim informativo independente Vlast e analista política, referindo-se a casos semelhantes, como quando Putin beijou um menino na barriga em 2006, aparentemente numa tentativa de retratar o presidente como mais próximo das massas.
O presidente realizou poucas viagens e reuniões até agora neste ano, em comparação com pelo menos 17 em 2025. Os compromissos do ano passado incluíram visitas à região de Kursk, na fronteira com a Ucrânia, e ao quartel-general militar, onde ele apareceu uniformizado pelo menos cinco vezes.
O Kremlin há muito tempo utiliza essas interações encenadas com pessoas comuns para demonstrar a acessibilidade de Putin. A redução nas atividades públicas é outro sinal de segurança mais rígida e foco reduzido em assuntos internos.
Andrei Kolesnikov, um analista político baseado em Moscou, disse: “Putin é como a nova escultura de Banksy em Londres [um homem carregando uma bandeira que cobre seu rosto], ele não quer ver nem ouvir. Ele só ouve os serviços de segurança, que agora controlam todas as esferas da vida, e espera que as pessoas se adaptem a isso como o novo normal.”
“A lacuna entre o que Putin está disposto a lidar e o que se espera dele está aumentando”, disse Tatiana Stanovaia, pesquisadora sênior do Carnegie Russia Eurasia Center. Os “surtos de descontentamento do público só se tornarão mais frequentes”, acrescentou ela.
O Kremlin não respondeu imediatamente a um pedido de comentário sobre as medidas de segurança ampliadas.
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