A decisão do ministro Kássio Nunes Marques de suspender a divulgação impulsionada de uma pesquisa da Atlas Intel adiciona um novo capítulo ao debate sobre o papel dos institutos de pesquisa e os limites da atuação da Justiça Eleitoral durante o processo eleitoral.
O levantamento ganhou relevância por ter sido o primeiro a registrar, de forma mais clara, uma queda nas intenções de voto de Flávio Bolsonaro após a repercussão do caso envolvendo o documentário Dark Horse e a divulgação de um áudio atribuído ao senador.
Até então, Flávio Bolsonaro vinha apresentando trajetória de crescimento em diferentes levantamentos, chegando a aparecer à frente do presidente Lula em alguns cenários. A pesquisa da Atlas Intel marcou uma mudança nesse quadro, mas não pode ser apontada, isoladamente, como responsável pela alteração observada nos números.
Desde então, diversos institutos registraram redução nas intenções de voto do parlamentar, indicando que o movimento foi captado de forma consistente por diferentes metodologias.
Ou seja, de forma bastante clara e direta: o problema para Flavio Bolsonaro não está no fato do entrevistado ter acesso ao audio ou não. O problema é ter revelado um contato próximo e íntimo com o responsável pelo maior escândalo financeiro da história de nosso país – mesmo após negar veementemente conhecê-lo.
Ao entrar com o pedido no TSE, o filho Zero Um perde duas chances:
i) de deixar o tema reduzir, momentaneamente, sua presença no cotidiano do brasileiro em tempos de Copa do Mundo. Ele reage, mostra que sentiu o golpe e nos faz rememorar o que houve. Alem disso, os (poucos) que ainda não ouviram o audio, agora tiveram sua curiosidade atiçada. E ii) de mostrar alguma maturidade diante do fato e fazer desse limão (bem azedo para si) uma limonada, explorando e interpretando os pontos de sensibilidade do eleitor com relação ao evento e medindo sua efetividade eleitoral de reverter essa situação.
Verdade seja dita: como escreveu a jornalista Daniela Lima, “Para atestar que o áudio é constrangedor, ninguém precisaria contratar um instituto de pesquisas”.
Ainda assim, o levantamento da Atlas Intel apresentou um elemento que se tornou alvo de questionamentos. Ao final da pesquisa, os entrevistados tinham acesso ao conteúdo do áudio que estava no centro da controvérsia política.
O instituto argumenta que o material era disponibilizado apenas após a conclusão das respostas, o que impediria qualquer alteração no posicionamento já registrado pelo participante. Como a pesquisa é realizada integralmente em ambiente digital, o eleitor somente tomava conhecimento do conteúdo após encerrar o questionário.
Por outro lado, a ação apresentada por Flávio Bolsonaro sustenta que determinadas perguntas continham expressões potencialmente capazes de induzir percepções negativas por parte dos entrevistados. Entre os argumentos levantados está o uso de termos associados a supostas fraudes financeiras, o que, segundo a defesa, comprometeria a neutralidade exigida em levantamentos eleitorais.
Independentemente do mérito da discussão metodológica, o impacto prático da suspensão sobre os números da pesquisa é limitado. O levantamento já havia sido divulgado há semanas e seus resultados já estavam incorporados ao debate público.
O efeito mais relevante da decisão está no campo institucional. A controvérsia tende a ampliar questionamentos sobre a credibilidade das pesquisas e pode estimular novas ações judiciais contra levantamentos eleitorais ao longo da campanha.
O precedente também desperta preocupação entre especialistas do setor. Caso decisões semelhantes se tornem frequentes, institutos podem adotar postura mais defensiva na elaboração de questionários, restringindo-se a perguntas mais objetivas sobre intenção de voto.
Embora esse tipo de informação seja importante para medir tendências eleitorais, parte significativa da riqueza analítica das pesquisas está justamente nos aspectos qualitativos, capazes de identificar percepções, sentimentos e motivações do eleitorado.
Outro ponto de atenção é a possibilidade de aumento da desconfiança tanto entre os institutos quanto entre os próprios participantes das pesquisas. Em um ambiente já marcado por questionamentos à credibilidade das instituições, a judicialização recorrente dos levantamentos pode levar entrevistados a responderem de forma menos espontânea, reduzindo a qualidade das informações coletadas.
A Atlas Intel, por sua vez, é um instituto com atuação internacional e metodologia consolidada em diferentes países. O debate, portanto, ultrapassa um levantamento específico e alcança uma questão mais ampla: até que ponto decisões judiciais envolvendo pesquisas eleitorais podem influenciar a produção de informação durante uma campanha.
Caso o Tribunal Superior Eleitoral venha a confirmar o entendimento adotado por Nunes Marques, abre-se a possibilidade de novos questionamentos semelhantes ao longo do processo eleitoral. Mais do que o resultado de uma única pesquisa, o que está em discussão é o ambiente institucional que cercará a divulgação de levantamentos e a produção de dados sobre o comportamento do eleitor nos próximos meses.
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