Há acordos de paz que encerram guerras. Há outros que apenas mudam os vencedores. O entendimento costurado entre Estados Unidos e Irã parece pertencer à segunda categoria.
Pelo que se sabe até agora, o regime dos aiatolás sai fortalecido. Continua no poder, preserva sua influência regional e mantém intacta a estrutura que há décadas sustenta a repressão interna e a projeção de força no Oriente Médio.
Em troca, Washington vende ao mundo a imagem de pacificador.
É uma operação política elegante, mas nem sempre a elegância diplomática combina com a realidade.
Donald Trump repete, por caminhos diferentes, aquilo que já havia criticado em seus antecessores: aceita conviver com um Irã mais forte. A retórica muda, os discursos são mais barulhentos, mas o resultado parece semelhante. Enquanto isso, Israel observa a movimentação com crescente desconforto.
Pela primeira vez em muito tempo, surge a impressão de que o aliado histórico dos Estados Unidos já não ocupa o centro da estratégia americana na região.
O aspecto mais relevante desse acordo talvez não esteja nas cláusulas conhecidas, mas no símbolo que ele carrega. A mensagem é que Washington está disposto a reorganizar suas prioridades geopolíticas. E, quando uma potência muda de lado ou apenas demonstra disposição para fazê-lo, todo o tabuleiro se transforma.
Talvez estejamos diante de um momento histórico. Não porque a paz tenha chegado ao Oriente Médio, mas porque as alianças que sustentaram a região durante décadas começam a ser revistas.
E quando alianças históricas entram em crise, o futuro deixa de ser uma promessa e passa a ser uma incógnita.
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