São João: quem foi o santo e por que ele virou festa no Brasil

Primo de Jesus, profeta e mártir: entenda a trajetória bíblica de João Batista e como ela moldou uma das maiores celebrações populares do Brasil

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Reprodução Pexels
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João Batista nunca pisou no Brasil. Mas o primo de Jesus, decapitado por ordem de Herodes Antipas, dá nome à maior festa popular do país. O Dia de São João, marcado para 24 de junho, já movimenta diferentes regiões do Brasil neste mês, e as celebrações devem se estender por julho.

A data não é aleatória. Segundo o historiador Estevam Machado, doutor pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o nascimento de João Batista e o de Jesus estão separados por exatamente seis meses. Isso coloca o nascimento do profeta em junho, no lado oposto do calendário ao Natal.

Quem foi João Batista

Na tradição cristã, João Batista era filho de Isabel e Zacarias, e primo de Jesus. “A tradição cristã conta que Isabel teria acendido uma fogueira para avisar Maria que João havia nascido”, afirma Machado. Conforme o escritor Luiz Antonio Simas, autor do livro *Santos de Casa*, “foi ele quem anunciou o Messias e batizou Cristo no rio Jordão”.

A vida do profeta terminou de forma violenta. Segundo Simas, Salomé, filha de Herodíades, dançou para Herodes Antipas e pediu a cabeça de João como recompensa. O governante ordenou a decapitação.

Além de São João, o mês de junho abriga outros dois santos. Santo Antônio é lembrado em 13 de junho e São Pedro, em 29 de junho. De acordo com a professora Ana Beatriz Dias Pinto, doutora em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), “Santo Antônio é conhecido como santo casamenteiro. São João, como o santo da terra e da colheita, e São Pedro, padroeiro dos pescadores e guardião das chaves do céu”.

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De ritual pagão a festa brasileira

Antes de virar celebração cristã, o período era marcado por rituais pagãos de solstício de verão na Europa. Conforme Ana Beatriz Dias Pinto, “ele era associado à fertilidade da terra, à alegria da chegada do verão no hemisfério norte e ao senso de comunidade no campo”. Com o tempo, a Igreja Católica foi incorporando essas celebrações ao calendário religioso. “Essas celebrações pagãs foram gradualmente associadas a santos populares”, destaca Dias Pinto.

Os portugueses trouxeram a tradição ao Brasil durante o período colonial. “O São João era muito celebrado tanto na Espanha como em Portugal”, afirmou Estevam Machado. “Como nós fomos colonizados pelos portugueses, e os portugueses trazem essa tradição católica, a gente acaba herdando essa festa.”

No Brasil, a festa ganhou novos ingredientes. Segundo Machado, elementos da cultura indígena foram absorvidos ao longo do tempo. “A festa se modifica com elementos, trazendo itens da cultura indígena, por exemplo. Aqui no Brasil, o milho era a base alimentar das populações americanas, das populações ameríndias, e ele vai ser transformado em vários subprodutos. Vai ter bolo de milho, canjica, e por aí vai. Até o próprio milho assado, milho cozido, a pamonha.”, disse o historiador.

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Do campo para os grandes palcos

A virada das festas juninas para eventos de massa aconteceu a partir das décadas de 1970 e 1980, segundo Machado. O poder público passou a investir pesado em duas cidades: Campina Grande (PB) e Caruaru (PE). “O Estado vai colocar a mão e vai colocar pesadamente lá em duas cidades polos”, afirmou o historiador.

O pesquisador Antonio George Paulino, coordenador do Laboratório de Antropologia e Imagem da Universidade Federal do Ceará (UFC), descreve o processo como uma transformação técnica e mercadológica. Segundo ele, as festas passaram a mobilizar “toda uma rede de produção e consumo, cultura e sociabilidade”.

As quadrilhas acompanharam essa mudança. Entre os séculos 19 e 20, conforme Ana Beatriz Dias Pinto, “as quadrilhas se tornaram encenações teatrais, os trajes foram estilizados e a música nordestina [xote, baião, forró] ganhou centralidade”. A professora acrescenta: “Nesse ponto, cidades como Caruaru e Campina Grande têm sido palco dessa tensão entre o passado e o presente. Ambas investem em grandes atrações de apelo nacional, mas também vêm buscando preservar espaços exclusivos para o forró tradicional, valorizando artistas locais e criando ‘ilhas’ culturais dentro da grande festa.”

O Nordeste consolidou-se como polo principal das festas juninas no Brasil, de acordo com Paulino. Mas o calendário de junho, com seus três santos, suas fogueiras e sua mistura de fé e cultura popular, já está em marcha em diferentes regiões do país.

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