Os terremotos registrados nos últimos dias na Venezuela, no Japão, na Califórnia e até os pequenos tremores sentidos na costa de Saquarema (RJ) deram a impressão de que o planeta atravessa uma fase de intensa atividade sísmica. No entanto, especialistas afirmam que essa percepção não corresponde à realidade.
A principal razão para essa sensação é a combinação entre uma grande tragédia, ampla cobertura da imprensa e o monitoramento cada vez mais eficiente dos tremores. Quando um desastre de grandes proporções ocorre, como o da Venezuela, outros abalos registrados ao redor do mundo passam a receber muito mais atenção, mesmo quando não têm qualquer relação entre si.
Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), a Terra registra, em média, cerca de 20 mil terremotos por ano — aproximadamente 55 por dia. A maioria deles tem baixa magnitude e sequer é percebida pela população. Já os terremotos de grande intensidade permanecem relativamente estáveis ao longo das décadas, com cerca de 15 eventos anuais de magnitude igual ou superior a 7.
Tragédia na Venezuela concentrou atenções
A sequência recente começou com dois terremotos de magnitudes 7,2 e 7,5 que atingiram a Venezuela em 24/06, provocando milhares de mortes e ampla destruição.
Poucas horas antes, um terremoto de magnitude 5,6 havia sido registrado na Califórnia. Cerca de meia hora após os tremores venezuelanos, outro abalo, de magnitude 6,9, atingiu o Japão.
A proximidade dos horários levantou especulações nas redes sociais, mas especialistas descartam qualquer ligação entre os episódios.
De acordo com o Serviço Geológico Britânico, cada terremoto ocorreu em um contexto tectônico diferente. O da Venezuela está relacionado aos movimentos entre as placas do Caribe e da América do Sul; o do Japão envolve placas do Pacífico; e o da Califórnia está associado às falhas geológicas da região, como a famosa Falha de San Andreas.
Em outras palavras, ocorrerem no mesmo dia não significa que tenham uma causa comum.
Por que a Venezuela sofre terremotos tão fortes?
A diferença entre a devastação registrada na Venezuela e os pequenos abalos sentidos no Brasil está na posição geológica de cada país.
A Venezuela está localizada justamente na fronteira entre a Placa do Caribe e a Placa Sul-Americana, uma região onde grandes blocos da crosta terrestre se empurram e deslizam constantemente.
Ao longo de décadas ou séculos, essas placas acumulam enorme quantidade de energia. Quando ocorre o rompimento de uma falha geológica, essa energia é liberada de forma brusca, produzindo terremotos rasos e de grande magnitude, capazes de causar destruição em larga escala.
Por que o Brasil também registra tremores?
Embora muita gente associe terremotos apenas a países localizados sobre falhas tectônicas, o Brasil também registra abalos sísmicos, ainda que, na maior parte das vezes, sejam fracos.
Isso acontece porque o país está situado no interior da Placa Sul-Americana, longe das áreas de colisão entre placas, sobre uma região geologicamente antiga e bastante estável.
Mesmo assim, a pressão exercida nas bordas da placa se distribui por todo o continente. O resultado é o eventual deslocamento de falhas geológicas antigas, fenômeno conhecido como terremoto intraplaca.
Esses eventos costumam apresentar baixa magnitude, normalmente entre 2 e 4, sendo suficientes para provocar pequenos sustos, mas raramente causam danos significativos.
Foi esse o caso dos cinco a seis pequenos tremores registrados entre 26/06 e 28/06 na costa de Saquarema, cujas magnitudes variaram entre aproximadamente 1,7 e 2,5.
A tecnologia também mudou a percepção
Outro fator que reforça a impressão de que os terremotos estão mais frequentes é o avanço da tecnologia.
Hoje existem muito mais estações sismográficas espalhadas pelo mundo, capazes de detectar tremores muito menores do que aqueles registrados há algumas décadas. Além disso, a divulgação quase instantânea das informações faz com que eventos ocorridos em qualquer parte do planeta ganhem repercussão em poucos minutos.
Por isso, a sequência recente de notícias não significa que a Terra esteja produzindo mais terremotos do que o normal, mas sim que os fenômenos são registrados com maior precisão e chegam mais rapidamente ao conhecimento do público.
Em resumo, a tragédia na Venezuela, os tremores em outras partes do mundo e os pequenos abalos em Saquarema fazem parte de contextos geológicos distintos. Apesar da proximidade no tempo, não há evidências científicas de que esses eventos estejam conectados ou indiquem um aumento global da atividade sísmica.
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