Em discurso na reunião do Mercosul realizada em Assunção nesta terça-feira (30/06), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu um recado direto a Donald Trump: “Ninguém é dono do mundo. E ninguém é dono da América do Sul”, disse Lula, segundo o texto do seu discurso.
O presidente defendeu que a força do bloco está em dialogar com todos sem abrir mão dos interesses regionais.
A declaração ocorre em um contexto de tensão comercial: os Estados Unidos sugeriram taxar produtos brasileiros em 25%, citado como um dos motivos de preocupação no encontro. De forma indireta, Lula também criticou a adoção de tarifas comerciais impostas pelos EUA.
“Guerras e conflitos aprofundam a instabilidade global e elevam os preços dos alimentos e da energia. O protecionismo ressurge como resposta falaciosa à complexidade dos desequilíbrios macroeconômicos globais. A fragmentação da economia mundial impõe severos desafios ao comércio, aos investimentos e ao desenvolvimento sustentável. Na atual conjuntura, o Mercosul é uma necessidade estratégica“, afirmou.
Pix para o Mercosul
Lula propôs que o Pix, sistema público e gratuito de pagamentos criado no Brasil, sirva de base para uma plataforma financeira integrada entre os países do bloco, citando-o como um exemplo de experiência nacional “bem-sucedida que deve ser compartilhada entre os países do bloco”. Segundo o presidente, a arquitetura do sistema pode reduzir custos, ampliar o uso de moedas locais e fortalecer o comércio dentro do Mercosul.
Na prática, isso significaria que cidadãos e empresas dos países membros poderiam fazer transferências entre si com menos burocracia e custo menor do que os sistemas bancários tradicionais permitem hoje.
“O Pix, sistema brasileiro público e gratuito de pagamentos, é referência internacional de inclusão financeira e eficiência digital. Sua arquitetura pode servir de base para uma infraestrutura de pagamentos que beneficiará todos os cidadãos do Mercosul”, afirmou Lula.
Interpol e crime organizado
O governo brasileiro também anunciou que vai custear, por um ano, a presença de delegados de 12 países da região na Interpol em Buenos Aires, “para ampliar a coordenação no combate ao tráfico internacional de drogas”. A medida foi apresentada como resposta ao avanço do crime organizado transnacional.
Lula citou a classificação feita pelos EUA das facções CV (Comando Vermelho) e PCC (Primeiro Comando da Capital) como grupos terroristas. O presidente alertou que “Não há democracia forte ou desenvolvimento duradouro onde o crime organizado corrói a autoridade legítima do Estado. Esse é um dos maiores desafios da nossa região. O crime organizado controla territórios, intimida comunidades, destrói o meio ambiente, alimenta a corrupção, desvia recursos públicos e expande sua atuação para o mundo digital”.
Minerais críticos e soberania digital
No discurso, Lula também defendeu que os recursos minerais estratégicos do continente sul-americano, fundamentais tanto para a transição energética quanto para a revolução digital, sejam aproveitados com maior valor agregado na própria região. “Possuímos reservas abundantes de minerais críticos, ativos indispensáveis para a descarbonização e a revolução digital. Desenvolver cadeias regionais que incluam etapas de maior valor agregado é uma questão de segurança nacional e soberania”, afirmou o presidente.
Lula também alertou para o risco do chamado colonialismo digital, expressão que descreve a dependência de países em desenvolvimento em relação a grandes empresas de tecnologia estrangeiras. “Agir como bloco nos fortalece frente à ameaça do colonialismo digital. Podemos ser mais do que fontes de dados e matéria-prima, e mercados consumidores para as grandes empresas de tecnologia”, afirmou.
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