A morte do inspetor da Polícia Civil Carlos Alberto Freire Neto, em uma emboscada de traficantes no Muquiço, reacendeu o debate sobre a violência em um dos trechos mais críticos da Avenida Brasil.
O ataque aconteceu ao lado de uma área do Exército, em frente ao Minhocão de Guadalupe. Construído na década de 1950 para abrigar militares, o conjunto hoje convive com o avanço da criminalidade no entorno.
Segundo o historiador Rodrigo Rainha, essa transformação acompanha as mudanças na ocupação urbana da região e a perda da presença do Estado.
“A ideia de construir uma série de conjuntos habitacionais e áreas de moradia para populações que historicamente estariam vinculados à estrutura militar que era muito forte no Rio de Janeiro, em especial quando aqui era a capital…uma vez abandonadas, passam a ser espaços de ocupação de moradia popular, passam sem a ação do Estado serem uma área em que cresce as dinâmicas de tráfico de drogas, como vai ser marcado em várias áreas do subúrbio do Rio de Janeiro.”
A violência na região se arrasta há décadas. Em 2007, cerca de 350 militares participaram de uma operação no Muquiço após traficantes atacarem a casa de um sargento. Em 2019, o músico Evaldo Rosa morreu depois que o carro em que estava foi atingido por mais de 80 disparos feitos por militares do Exército.
Para o antropólogo e capitão veterano do Bope Paulo Storani, o fortalecimento das organizações criminosas mudou a relação das facções com áreas ligadas às Forças Armadas.
“Uma realidade lamentável do Brasil hoje, onde as Forças Armadas Brasileiras, com todo o seu poderio, com toda a sua trajetória, sua tradição e história, está se perdendo por conta desses valores que muitas das vezes estão sendo colocados de lado em relação à forma como ela se relaciona com a sociedade.”
Quem passa pela região diz que a presença do Exército hoje se concentra nos apartamentos funcionais.
“Do um lado fica a área de Mata, onde tem o guarita também, desarmado. E do outro lado fica o condomínio, onde tem essa Guarita também deles. E do lado tem o quartel do Bombeiro, entendeu? E ele fica desarmado. Eles sempre estão atravessando a rua, indo para o área de Mata e voltando, sempre desarmados. Somente serviço de Guarita. Ficando na entrada, abrindo o portão e fechando, entendeu?”
Em nota, o Comando Militar do Leste informou que há quatro blocos de apartamentos funcionais na região, com serviço de guarda nas portarias e monitoramento por câmeras.
A reportagem questionou quais são as atribuições desses militares, se eles atuam armados e quais protocolos existem para casos de violência nas imediações dos apartamentos funcionais. Até o fechamento desta edição, o Comando Militar do Leste não havia respondido.




