Trump usa tarifas para pressionar autonomia comercial do Brasil, diz jornal britânico

Editorial do The Guardian afirma que ameaça comercial dos EUA tem como alvo real as decisões soberanas do Brasil sobre regulação digital e o Pix

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(Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Nesta quarta-feira (15/07), o governo dos Estados Unidos deve divulgar sua decisão sobre a imposição de novas tarifas ao Brasil. O anúncio acontece em um contexto que, de acordo com editorial do jornal britânico “The Guardian” divulgado na terça-feira (14/07), transcende questões meramente comerciais. Segundo o periódico, o presidente Donald Trump se vale de acusações ligadas ao comércio como instrumento para atacar a autonomia do país.

O editorial do “The Guardian” é direto: a verdadeira infração do Brasil, na visão do jornal, não é o protecionismo, mas a autonomia. A Casa Branca investiga práticas comerciais brasileiras que considera injustas, e o Pix, sistema de pagamentos instantâneos criado pelo governo federal, está entre os alvos.

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Pix e soberania digital no centro da disputa

O “The Guardian” descreve o Pix como parte de uma estratégia brasileira de reduzir a dependência de redes de pagamento controladas por estrangeiros. O sistema contorna redes de cartão como Visa e Mastercard. Segundo o jornal, a questão central é se é possível existir, na América Latina, uma infraestrutura pública de pagamentos bem-sucedida fora do controle americano.

Na prática, isso significa que qualquer brasileiro que usa o Pix para pagar uma conta ou transferir dinheiro está no centro de uma disputa geopolítica entre Brasília e Washington.

STF, plataformas e a tarifa de 25%

Em junho, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que plataformas de redes sociais podem ser responsabilizadas por postagens de usuários. A decisão foi uma reação, segundo o The Guardian, às mentiras online que alimentaram a tentativa de golpe de extrema-direita liderada por Jair Bolsonaro em 2023.

Um mês depois, Trump propôs uma tarifa de 25% sobre as importações brasileiras. O jornal britânico atribui a proposta à reação de Trump à decisão do STF: o presidente americano reclamou que os juízes teriam obrigado empresas de tecnologia dos EUA a retirar do ar material que ele classificou como político.

O “The Guardian” resume o conflito assim: Lula quer que o Brasil possa fiscalizar a desinformação antidemocrática dentro do próprio país. Trump defende que os EUA deveriam ter jurisdição sobre o espaço informacional brasileiro.

Leia mais: Palácio do Planalto já sabe que o Brasil será taxado novamente pelos EUA

Bolsonaro pede a Trump para esperar as eleições

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pediu a Trump que evite aplicar as tarifas pelo menos até as eleições brasileiras de outubro de 2026. O “The Guardian” caracteriza Flávio como menos carismático que o pai, mas ancorado no mesmo antiesquerdismo, nas mesmas políticas de lei e ordem e nas mesmas guerras culturais de extrema-direita.

O jornal afirma que Trump rebatizou a soberania brasileira como discriminação comercial injusta, e que o bolsonarismo está disposto a embarcar nessa narrativa.

Lula e o histórico de redução da pobreza

O “The Guardian” contextualiza o momento político com o histórico de Luiz Inácio Lula da Silva. O presidente governou o Brasil de 2003 a 2011 e retornou ao cargo em 2023, após juízes anularem suas condenações por corrupção. Segundo o jornal, a pobreza extrema no país caiu de 30 milhões de pessoas em 2002 para menos de 7 milhões atualmente.

O editorial descreve Lula como alguém que fez da redistribuição a linguagem da democracia brasileira, e enquadra a pressão americana como uma ameaça a esse projeto.

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