Nesta quarta-feira (15/07), o governo dos Estados Unidos deve divulgar sua decisão sobre a imposição de novas tarifas ao Brasil. O anúncio acontece em um contexto que, de acordo com editorial do jornal britânico “The Guardian” divulgado na terça-feira (14/07), transcende questões meramente comerciais. Segundo o periódico, o presidente Donald Trump se vale de acusações ligadas ao comércio como instrumento para atacar a autonomia do país.
O editorial do “The Guardian” é direto: a verdadeira infração do Brasil, na visão do jornal, não é o protecionismo, mas a autonomia. A Casa Branca investiga práticas comerciais brasileiras que considera injustas, e o Pix, sistema de pagamentos instantâneos criado pelo governo federal, está entre os alvos.
Pix e soberania digital no centro da disputa
O “The Guardian” descreve o Pix como parte de uma estratégia brasileira de reduzir a dependência de redes de pagamento controladas por estrangeiros. O sistema contorna redes de cartão como Visa e Mastercard. Segundo o jornal, a questão central é se é possível existir, na América Latina, uma infraestrutura pública de pagamentos bem-sucedida fora do controle americano.
Na prática, isso significa que qualquer brasileiro que usa o Pix para pagar uma conta ou transferir dinheiro está no centro de uma disputa geopolítica entre Brasília e Washington.
STF, plataformas e a tarifa de 25%
Em junho, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que plataformas de redes sociais podem ser responsabilizadas por postagens de usuários. A decisão foi uma reação, segundo o The Guardian, às mentiras online que alimentaram a tentativa de golpe de extrema-direita liderada por Jair Bolsonaro em 2023.
Um mês depois, Trump propôs uma tarifa de 25% sobre as importações brasileiras. O jornal britânico atribui a proposta à reação de Trump à decisão do STF: o presidente americano reclamou que os juízes teriam obrigado empresas de tecnologia dos EUA a retirar do ar material que ele classificou como político.
O “The Guardian” resume o conflito assim: Lula quer que o Brasil possa fiscalizar a desinformação antidemocrática dentro do próprio país. Trump defende que os EUA deveriam ter jurisdição sobre o espaço informacional brasileiro.
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Bolsonaro pede a Trump para esperar as eleições
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pediu a Trump que evite aplicar as tarifas pelo menos até as eleições brasileiras de outubro de 2026. O “The Guardian” caracteriza Flávio como menos carismático que o pai, mas ancorado no mesmo antiesquerdismo, nas mesmas políticas de lei e ordem e nas mesmas guerras culturais de extrema-direita.
O jornal afirma que Trump rebatizou a soberania brasileira como discriminação comercial injusta, e que o bolsonarismo está disposto a embarcar nessa narrativa.
Lula e o histórico de redução da pobreza
O “The Guardian” contextualiza o momento político com o histórico de Luiz Inácio Lula da Silva. O presidente governou o Brasil de 2003 a 2011 e retornou ao cargo em 2023, após juízes anularem suas condenações por corrupção. Segundo o jornal, a pobreza extrema no país caiu de 30 milhões de pessoas em 2002 para menos de 7 milhões atualmente.
O editorial descreve Lula como alguém que fez da redistribuição a linguagem da democracia brasileira, e enquadra a pressão americana como uma ameaça a esse projeto.




