O Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) alertou que o mundo corre o risco de enfrentar um novo agravamento da epidemia de HIV, apesar dos avanços científicos e da redução histórica no número de infecções e mortes relacionadas à Aids. O alerta faz parte do relatório “Unidas e Unidos para acabar com a Aids”, apresentado durante a 26ª Conferência Internacional de Aids (AIDS 2026), realizada no Rio de Janeiro.
Segundo o documento, os cortes no financiamento internacional, a redução dos serviços comunitários e as dificuldades de acesso à prevenção podem comprometer décadas de progresso e afastar o mundo da meta de eliminar a AIDS como ameaça à saúde pública até 2030.
Em 2025, foram registrados 1,2 milhão de novos casos de HIV e 570 mil mortes relacionadas à AIDS, os menores números dos últimos 30 anos. Desde 2010, as novas infecções caíram 42,9% no mundo, mas a redução ainda está distante da meta necessária para alcançar o objetivo estabelecido pela ONU.
Apesar da tendência global de queda, o Brasil aparece entre os 21 países que registraram aumento superior a 20% nas novas infecções desde 2010. Na América Latina, o crescimento foi de 25% no mesmo período.
Avanços científicos ampliam prevenção
O relatório destaca que o desenvolvimento de novos medicamentos representa um momento histórico no combate ao HIV. Entre as principais inovações estão injeções preventivas de aplicação mensal e semestral, além de comprimidos de uso mensal ainda em fase de testes.
Segundo o Unaids, essas tecnologias oferecem níveis de proteção próximos aos de uma vacina, mas o principal desafio é garantir acesso amplo e preços acessíveis.
No Brasil, o número de pessoas que utilizaram a profilaxia pré-exposição (PrEP) aumentou 41% em 2025, passando de 165 mil para 233 mil usuários. O país, porém, ficou fora dos acordos de licenciamento voluntário da farmacêutica Gilead para o lenacapavir, medicamento injetável de aplicação semestral considerado uma das principais promessas para prevenção do HIV. Diante disso, o governo brasileiro avalia recorrer ao licenciamento compulsório para ampliar o acesso ao medicamento.
Financiamento em queda preocupa
O relatório aponta que a ajuda internacional destinada ao combate ao HIV caiu 18% em 2025, passando de US$ 8,8 bilhões para US$ 7,3 bilhões, o menor patamar em quase duas décadas. Já a assistência oficial ao desenvolvimento recuou 23%, a maior redução já registrada.
Segundo o Unaids, os efeitos já começaram a aparecer. Em países mais afetados pela epidemia, a testagem para HIV caiu 22%, o financiamento para programas de distribuição de preservativos foi reduzido em 93%, e os recursos destinados a ações de prevenção diminuíram 80%.
A situação é considerada especialmente grave na África Subsaariana, onde muitos países dependem de recursos internacionais para financiar a maior parte das ações de combate ao HIV.
Serviços comunitários e direitos humanos
O relatório também alerta que os programas comunitários estão entre os mais afetados pelos cortes de recursos. Um levantamento realizado em 47 países mostrou redução de:
- 50% nos serviços de apoio à prevenção e ao tratamento do HIV;
- 85% nos serviços voltados para homens gays e outros homens que fazem sexo com homens;
- 82% nos serviços destinados a profissionais do sexo;
- 72% nos serviços para sobreviventes de violência baseada em gênero.
Além da crise financeira, o UNAIDS destaca um aumento da criminalização de populações vulneráveis, o que dificulta o acesso aos serviços de saúde e pode favorecer a disseminação do vírus.
Metas para 2030
Apesar dos desafios, 149 países aprovaram uma nova Declaração Política sobre HIV e Aids, com metas para 2030. Entre os objetivos estão:
- 40 milhões de pessoas em tratamento;
- 20 milhões de pessoas com acesso à prevenção baseada em antirretrovirais;
- reduzir para menos de 10% os casos de estigma, discriminação, desigualdade de gênero e leis que dificultem o acesso aos serviços.
Segundo o Unaids, o cumprimento dessas metas poderá evitar 3,2 milhões de novas infecções e 1,3 milhão de mortes relacionadas à AIDS até 2030. A agência afirma que, embora o fim da epidemia continue sendo possível, o resultado dependerá da retomada dos investimentos, da ampliação do acesso às novas tecnologias e da adoção de políticas públicas voltadas à redução das desigualdades.




