A história de Brasília pode ser contada por quem viu a cidade sair do papel, mas também por quem nasceu com ela. Mais de seis décadas após a inauguração da capital, o crescimento da população local revela que, mesmo planejada para receber migrantes, a cidade passou a ser, cada vez mais, formada por pessoas que nasceram e sempre viveram em território brasiliense.
O advogado Antônio Cândido Osório Neto é um exemplo dessa transformação. Ele nasceu em março de 1960, poucas semanas antes da inauguração oficial de Brasília, e acompanhou de perto a consolidação da capital federal.
Filho de pioneiros, Antônio Cândido viu o projeto idealizado no cerrado ganhar forma e se transformar na metrópole que hoje reúne mais de três milhões de habitantes. Ao longo dos anos, ele presenciou as mudanças que marcaram a cidade, da falta de estrutura nos primeiros anos ao crescimento acelerado das regiões administrativas.
“Meu pai, gaúcho, veio para Brasília em 1957. Ele conheceu minha mãe durante as idas e vindas de Goiânia, já que minha mãe é goianense. Os dois se casaram em 1959, em Goiânia, vieram para Brasília logo após e eu nasci em março do ano seguinte”, contou Osório.
Ao se recordar dos primeiros anos da capital, que também marcam o início de sua vida, o advogado destacou que, em Brasília, não havia violência. “Brasília era muito mais tranquila. O trânsito era tranquilo, quase não existia violência. A segurança, ao menos no Plano Piloto, era absoluta. E, ao longo dessas mais de seis décadas, nunca me mudei daqui. Minhas filhas nasceram aqui, meu último filho nasceu aqui”, reforçou.
O relato de Antônio mostra que a trajetória pessoal dele se confunde com a própria evolução da capital. Brasília deixou de ser apenas um projeto arquitetônico e passou a abrigar novas gerações, que já nasceram na cidade e hoje representam a maior parte da população.
Dados do Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPEDF) mostram que 55,5% dos moradores da capital são brasilienses de nascimento, um número que reflete uma mudança significativa no perfil demográfico da cidade.
Esse crescimento também aparece dentro das famílias. Se antes era raro encontrar alguém nascido em Brasília, hoje já existem casos de até três gerações consecutivas de brasilienses.
Assim, a cidade construída com o trabalho dos candangos agora vê surgir uma identidade própria, formada por quem nasceu e cresceu aqui. Entre memórias e transformações, Brasília segue avançando cada vez mais marcada pela história de seus próprios moradores.
“Eu me sinto muito bem em relação a Brasília, inclusive a minha mãe é uma batalhadora incansável pela cidade. No auge de seus 88 anos, ela continua lutando bravamente, inclusive politicamente, pela cidade. Eu não me vejo morando em outro lugar. A tranquilidade, a não poluição do ar, são qualidades que não encontramos facilmente em outra metrópole“, concluiu Antônio Cândido.
- Por Aline Brito
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