Os dois ataques de tubarão registrados em apenas dois dias no litoral da Região Metropolitana do Recife reacenderam o debate sobre os riscos nas praias pernambucanas. Nesta segunda-feira (01/06), uma jovem de 19 anos foi atacada na Praia de Boa Viagem, no Recife. No domingo (31/05), um menino de 11 anos foi mordido por um tubarão na Praia de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes, e segue internado em estado grave.
Embora os ataques sejam frequentemente associados a um fenômeno natural, especialistas apontam que a concentração de incidentes na costa pernambucana é resultado de uma combinação de fatores ambientais e humanos.
Até o início da década de 1990, os registros de ataques eram considerados raros na região. O cenário mudou após a implantação do Complexo Industrial Portuário de Suape, no litoral sul do estado.
A construção do porto provocou a destruição de extensas áreas de manguezais e estuários, que funcionavam como habitat e área de alimentação para espécies como o tubarão-cabeça-chata. Com a perda desse ambiente, os animais passaram a migrar para outras áreas da costa, aproximando-se da região metropolitana do Recife.
Além da alteração ambiental, a própria geografia do litoral pernambucano favorece a presença dos tubarões perto das praias. Um canal de águas profundas corre paralelamente à costa e permite que os animais se desloquem com facilidade próximo à faixa de areia.
Outro fator importante são os arrecifes que deram origem ao nome da capital pernambucana. Durante a maré alta, os tubarões conseguem ultrapassar essas barreiras naturais em busca de alimento. Quando a maré começa a baixar, alguns deles podem ficar temporariamente entre os arrecifes e a praia, área frequentada pelos banhistas.
Especialistas também apontam que a qualidade da água influencia os incidentes. Rios e canais urbanos transportam matéria orgânica, esgoto e resíduos para o mar, atraindo peixes menores e, consequentemente, predadores maiores.
Como a água na região costuma apresentar baixa visibilidade, muitos ataques são classificados como possíveis casos de “erro de identificação”, quando o tubarão confunde partes do corpo humano com presas naturais.
As espécies mais frequentemente associadas aos incidentes são o tubarão-cabeça-chata, conhecido por se adaptar a águas turvas e estuarinas, e o tubarão-tigre, espécie oportunista que costuma percorrer longas distâncias seguindo correntes marítimas e rotas de embarcações.
Monitoramento e prevenção
A gestão dos incidentes é coordenada pelo Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit), criado em 2004.
O programa científico de captura, marcação e rastreamento dos animais foi interrompido em 2015. Nos últimos anos, no entanto, o governo estadual e instituições de pesquisa anunciaram iniciativas para retomar o monitoramento.
A proposta inclui a instalação de receptores acústicos no fundo do mar e a marcação eletrônica de espécies consideradas de maior risco. A tecnologia permite identificar a aproximação de tubarões monitorados da costa.
Enquanto isso, as ações de prevenção continuam concentradas na fiscalização, na sinalização e na conscientização dos frequentadores das praias.
Desde 1999, um decreto estadual proíbe a prática de surfe, bodyboard e outros esportes que exigem maior afastamento da costa em um trecho de aproximadamente 33 quilômetros do litoral, abrangendo áreas de Paulista, Olinda, Recife e Jaboatão dos Guararapes.
O Corpo de Bombeiros também atua orientando banhistas, retirando pessoas de áreas consideradas perigosas e fiscalizando o cumprimento das restrições.
Nas praias de maior risco, como Boa Viagem e Piedade, placas alertam sobre o perigo de ataques e indicam os limites seguros para banho.
As autoridades recomendam evitar entrar no mar durante a maré alta, em períodos de chuva ou quando a água estiver muito turva. Também orientam que os banhistas não ultrapassem os arrecifes e respeitem as determinações dos guarda-vidas.
Apesar das medidas adotadas, os recentes incidentes voltaram a levantar questionamentos sobre a eficácia do monitoramento e sobre possíveis alternativas para ampliar a segurança dos frequentadores das praias pernambucanas.
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