O relato do cantor Zé Felipe sobre o uso excessivo de medicamentos para dormir acendeu um alerta sobre um problema cada vez mais comum: o abuso de remédios como forma de lidar com ansiedade e insônia.
Para entender quando o uso deixa de ser tratamento e passa a representar um risco, o psiquiatra Henrique Bottura, presidente do Instituto de Psiquiatria Paulista, explica os principais sinais e consequências desse comportamento.
Quando o uso se torna abusivo
De acordo com o especialista, o uso abusivo de medicamentos acontece quando há desvio da orientação médica, seja na dose, no tempo ou até na ausência de prescrição.
“Se caracteriza quando se toma uma dose maior do que a que foi prescrita pelo médico e por mais tempo do que foi indicado. Também entra como uso abusivo quando a pessoa utiliza o medicamento sem qualquer orientação médica”, afirma.
No caso dos remédios para dormir, o cenário é ainda mais comum.
“Muitas pessoas se mantêm tomando por longos períodos sem critério médico, sem estar conectado a um tratamento ou estratégia terapêutica”, completa.
O momento em que se perde o controle
A perda de controle é um dos principais pontos de atenção e pode indicar evolução para dependência.
“Quando a pessoa perde o controle, ela passa a tomar doses cada vez maiores e não consegue regular o próprio comportamento”, explica Bottura.
Segundo ele, esse processo costuma acontecer de forma gradual, até que o uso se torna desproporcional e, muitas vezes, descuidado.
“A pessoa começa a tomar doses muito maiores do que eram prescritas.”
Os riscos para o corpo e a mente
O abuso de medicamentos não apenas mascara o problema original, como pode agravá-lo.
“Um dos riscos é o adiamento do tratamento da condição de base. A pessoa usa o remédio para dormir, mas deixa de tratar a causa do problema, o que pode agravar o quadro clínico”, destaca.
Além disso, há o risco de desenvolvimento de dependência, que se torna um problema à parte.
“A dependência faz com que a pessoa precise de doses cada vez maiores e passe a se colocar em situações de risco, comprometendo a própria vida”, afirma.
Outro sinal preocupante é a incapacidade de interromper o uso.
“Mesmo diante de prejuízos evidentes, a pessoa não consegue evitar ou reduzir o consumo.”
Por que tantas pessoas recorrem a esses medicamentos?
A busca por soluções rápidas ajuda a explicar o cenário.
“As alterações de sono e ansiedade são muito frequentes no mundo moderno. E o medicamento aparece como uma forma simples e rápida de aliviar os sintomas”, diz o psiquiatra.
No entanto, esse caminho pode afastar o tratamento adequado.
“Muitas vezes, as pessoas deixam de buscar alternativas mais completas, como terapia, mudanças de hábito e desenvolvimento de habilidades, como a higiene do sono.”
Tratamento exige abordagem completa
Quando o uso evolui para dependência, o tratamento se torna mais complexo e exige uma rede de apoio estruturada.
“Para quem já desenvolveu dependência, o tratamento costuma ser mais difícil, porque muitas vezes há resistência em reconhecer o problema”, explica Bottura.
Segundo ele, o processo envolve múltiplas frentes.
“É necessário apoio médico, psicológico e também social, com uma rede de suporte que ajude na organização da rotina e na redução da exposição ao uso.”
Essa abordagem integrada é essencial para aumentar as chances de recuperação e evitar recaídas.
Um alerta atual
O caso de Zé Felipe reflete uma realidade mais ampla: a tendência de buscar soluções imediatas para lidar com sofrimento emocional.
“Hoje, muitas pessoas acabam buscando caminhos mais curtos, que nem sempre são os corretos ou os melhores”, conclui Bottura.
O alerta é claro: mais do que aliviar sintomas, é fundamental tratar a causa.
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