Inglaterra x Argentina: semifinal da Copa revive um dos confrontos mais tensos da história do futebol

Seleções voltam a se enfrentar em uma Copa do Mundo após 24 anos, em duelo marcado por episódios históricos, tensão política e forte esquema de segurança em Atlanta

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Torcedores da Argentina se reúnem no complexo Underground Atlanta na véspera da semifinal entre Argentina e Inglaterra pela Copa do Mundo da FIFA 2026, em Atlanta, Geórgia, EUA, em 14/07/2026.
Torcedores da Argentina se reúnem no complexo Underground Atlanta na véspera da semifinal entre Argentina e Inglaterra pela Copa do Mundo (Megan Varner/Reuters)

Argentina e Inglaterra voltam a decidir uma vaga em uma Copa do Mundo nesta quarta-feira (15/07), às 16h (de Brasília), no Estádio de Atlanta, nos Estados Unidos. Em jogo válido pela semifinal do Mundial de 2026, o confronto reúne duas seleções tradicionais e reacende uma das rivalidades mais intensas, politizadas e emblemáticas da história do futebol.

Mais do que um duelo entre campeões mundiais, o encontro carrega décadas de confrontos memoráveis, episódios controversos e um contexto histórico que ultrapassa as quatro linhas. A Guerra das Malvinas, travada entre Argentina e Reino Unido em 1982, transformou definitivamente o clássico em um símbolo de identidade nacional para ambos os países.

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Embora o primeiro capítulo da rivalidade tenha sido disputado na Copa de 1962, foi o confronto das quartas de final do Mundial de 1966, na Inglaterra, que elevou a tensão entre as seleções. A expulsão do capitão argentino Antonio Rattín gerou enorme polêmica, e o técnico inglês Alf Ramsey chegou a chamar os argentinos de “animais” após a partida, agravando a animosidade entre os dois lados.

Quatro anos após a Guerra das Malvinas, a rivalidade atingiu seu auge na Copa do Mundo de 1986. Nas quartas de final disputadas no México, Diego Maradona protagonizou dois dos lances mais famosos da história do futebol. Primeiro, marcou o polêmico gol conhecido como “La Mano de Dios”, validado pela arbitragem apesar do toque com a mão. Poucos minutos depois, arrancou do meio de campo, driblou cinco adversários e marcou o gol que a Fifa posteriormente reconheceu como o “Gol do Século”. A vitória por 2 a 1 levou a Argentina rumo ao bicampeonato mundial e ganhou forte significado simbólico.

O duelo voltou a produzir outro capítulo marcante em 1998, nas oitavas de final da Copa da França. Após empate por 2 a 2, David Beckham foi expulso depois de revidar uma provocação de Diego Simeone, deixando a Inglaterra com um jogador a menos. A Argentina avançou nos pênaltis por 4 a 3, enquanto o camisa 7 inglês passou a ser tratado como vilão pelos torcedores do seu próprio país.

Na Copa de 2002, porém, veio a resposta inglesa. Beckham converteu um pênalti e garantiu a vitória por 1 a 0, resultado decisivo para a eliminação da Argentina ainda na fase de grupos e que simbolizou a redenção do então capitão inglês.

Ao todo, Argentina e Inglaterra se enfrentaram 14 vezes na história, com vantagem inglesa no retrospecto geral: seis vitórias, cinco empates e três triunfos argentinos, além de 22 gols marcados pelos europeus contra 17 dos sul-americanos.

Histórico em Copas

O histórico de confrontos entre Argentina e Inglaterra em Copas do Mundo é formado por cinco partidas (antes da semifinal de hoje), a maioria marcada por tensão política, atuações lendárias e incidentes que mudaram a história do esporte.

1962, Chile: o primeiro encontro (fase de grupos)

  • Resultado: Inglaterra 3 x 1 Argentina
  • O jogo: Foi o encontro menos polêmico da rivalidade, ocorrendo antes de as tensões políticas e esportivas escalarem. A Inglaterra venceu com autoridade em Rancagua, marcando com Ron Flowers, Bobby Charlton e Jimmy Greaves, enquanto José Sanfilippo descontou. A derrota contribuiu para a eliminação precoce da Argentina, que não passou da primeira fase.

1966, Inglaterra: o nascimento da hostilidade (Quartas de final)

  • Resultado: Inglaterra 1 x 0 Argentina
  • O jogo: Aqui a rivalidade de fato nasceu. O jogo no Estádio de Wembley foi violento e travado. O momento crucial foi a expulsão do capitão argentino, Antonio Rattín. Ele se recusou a sair de campo, alegando que só queria conversar com o árbitro alemão (que não falava espanhol), atrasando a partida em 10 minutos. Ao finalmente sair, Rattín sentou-se no tapete vermelho exclusivo da Rainha e apertou a bandeira britânica na marca de escanteio. O gol da vitória inglesa foi marcado por Geoff Hurst. Após o apito final, o técnico inglês Alf Ramsey proibiu seus jogadores de trocarem camisas com os argentinos, chamando-os publicamente de “animais”.

1986, México: a revanche de Maradona (quartas de final)

  • Resultado: Argentina 2 x 1 Inglaterra
  • O jogo: Disputado quatro anos após a Guerra das Malvinas, o clima era de revanche nacional para os argentinos. Diego Maradona protagonizou os quatro minutos mais famosos da história do torneio. Aos 6 do segundo tempo, marcou o gol com a mão (“La Mano de Dios”), que o árbitro tunisiano Ali Bin Nasser não viu e validou. Aos 10, arrancou do próprio campo, driblou cinco ingleses e o goleiro Peter Shilton para marcar o “Gol do Século”. Gary Lineker ainda diminuiu, mas a Argentina avançou rumo ao bicampeonato.

1998, França: pênaltis e provocações (oitavas de final)

  • Resultado: Argentina 2 x 2 Inglaterra (vitória argentina por 4 a 3 nos pênaltis)
  • O jogo: Um clássico épico em Saint-Étienne. O primeiro tempo teve um gol antológico do jovem Michael Owen, de 18 anos, e uma cobrança de falta ensaiada perfeita, finalizada pelo argentino Javier Zanetti. No segundo tempo, Diego Simeone cometeu uma falta em David Beckham, provocou, e o inglês revidou com um chute deitado no chão, sendo imediatamente expulso. A Inglaterra resistiu com um jogador a menos até a disputa de pênaltis, mas o goleiro Carlos Roa defendeu a cobrança decisiva de David Batty.

2002, Coreia do Sul e Japão: a redenção de Beckham (fase de grupos)

  • Resultado: Inglaterra 1 x 0 Argentina
  • O jogo: As duas equipes caíram no “grupo da morte”. Em uma partida extremamente tática e de muita marcação no Sapporo Dome, o jogo foi decidido no final do primeiro tempo: Michael Owen sofreu pênalti do zagueiro Mauricio Pochettino. David Beckham, vilão na Copa anterior, chamou a responsabilidade e bateu forte, no meio do gol, garantindo a vitória. O resultado classificou os ingleses e foi decisivo para a eliminação da Argentina na primeira fase daquele Mundial.

O peso das Malvinas

A Guerra das Malvinas (ou Falklands War, para os britânicos), ocorrida em 1982, é o peso fundamental que transformou o confronto entre Argentina e Inglaterra de uma rivalidade esportiva em uma questão de identidade nacional e geopolítica.

Embora o atrito em campo já existisse desde a Copa de 1966, foi o conflito armado que elevou as tensões a um nível belicoso. O impacto desse evento na rivalidade se divide em três frentes principais:

O conflito de 74 dias pelo controle do arquipélago no Atlântico Sul terminou com a vitória do Reino Unido e deixou cerca de 649 soldados argentinos e 255 britânicos mortos. Para a Argentina, a derrota militar sob o comando de uma ditadura em declínio foi um trauma nacional profundo.

Quando as duas seleções se encontraram na Copa do Mundo de 1986, apenas quatro anos após o fim da guerra, o futebol tornou-se um palco de guerra sublimada. Para a sociedade argentina, o campo era o único lugar onde o país poderia enfrentar e “derrotar” a potência europeia de igual para igual.

A partida das quartas de final no México foi disputada sob uma atmosfera de hostilidade quase insuportável. Os dois gols de Diego Maradona ganharam significados que transcenderam o esporte devido ao contexto das Malvinas:

  • A “Mano de Dios”: O gol de mão foi celebrado por muitos na Argentina não apenas como uma transgressão esportiva, mas como um ato de “malícia” e astúcia contra o opressor histórico — uma espécie de justiça poética subversiva.
  • O Gol do Século: O segundo gol, onde Maradona dribla meia equipe inglesa, foi visto como a humilhação máxima e inquestionável do adversário.

Em sua autobiografia, Maradona resumiu o sentimento do vestiário naquele dia: “Era como se tivéssemos vencido um país, não uma equipe de futebol… Dizíamos que o esporte não tinha nada a ver com as Malvinas, mas sabíamos que muitos garotos argentinos haviam morrido lá. Aquilo era uma vingança.”

Até hoje, a Guerra das Malvinas é o pilar central da cultura de arquibancada da seleção argentina. A memória do conflito é evocada constantemente para inflamar a torcida e os jogadores:

  • Cânticos: O grito “El que no salta es un inglés” (Quem não pula é um inglês) é um dos mais tradicionais nos estádios argentinos, cantado contra qualquer adversário como forma de exaltação patriótica.
  • “Muchachos”: O hino que embalou o título mundial da Argentina em 2022 no Catar cita explicitamente os soldados mortos no conflito logo em seus primeiros versos: “De los pibes de Malvinas que jamás olvidaré” (Dos garotos das Malvinas que jamais esquecerei).

Apesar da carga histórica, o técnico argentino Lionel Scaloni procurou afastar qualquer associação entre o jogo e a disputa política envolvendo as Malvinas. “Não podemos misturar as coisas. Foi uma época muito triste da nossa história. É um jogo de futebol. Não temos que confundir as coisas”, afirmou o treinador.

Scaloni também ressaltou que nenhum dos jogadores atuais tem relação com o conflito ocorrido há mais de quatro décadas e defendeu que a partida seja tratada apenas como um evento esportivo.

Outro detalhe remete à história entre os dois países. A seleção argentina atuará com a tradicional camisa azul, utilizada justamente nas vitórias sobre a Inglaterra nas Copas de 1986 e 1998. Questionado sobre uma possível superstição, Scaloni lembrou que a decisão não partiu dele, mas da Fifa.

Do lado inglês, a guerra teve um peso diferente. O Reino Unido saiu vitorioso do conflito militar, o que gerou uma onda de nacionalismo e reforçou o orgulho imperial britânico na época. No entanto, no contexto do futebol, o ressentimento inglês contra a Argentina é alimentado menos pela guerra e mais pelo sentimento de injustiça esportiva.

Para os ingleses, a “Mano de Dios” em 1986 e a expulsão de Beckham em 1998 consolidaram a imagem da seleção argentina como uma equipe que recorre à trapaça e à catimba, criando um choque de filosofias entre o “fair play” britânico e a “malícia” sul-americana.

Esquema de segurança

A expectativa em torno da partida também mobilizou as autoridades americanas. O FBI classificou a semifinal entre Argentina e Inglaterra como o jogo de maior risco de toda a Copa do Mundo de 2026. Em resposta, foi montada uma grande operação de segurança envolvendo A Fifa, a polícia de Atlanta e autoridades britânicas.

Entre as medidas adotadas estão a entrada das torcidas por portões separados, reforço da fiscalização dentro do estádio, patrulhamento ampliado em áreas turísticas, hotéis e bares da cidade, além da mobilização de aproximadamente 1.800 policiais, 170 agentes de forças especiais e 500 profissionais de apoio logístico.

O vencedor enfrentará a Espanha na decisão do Mundial, marcada para domingo (19/07), no estádio de Nova York/Nova Jersey. Independentemente do resultado, o confronto desta quarta-feira promete acrescentar mais um capítulo a uma rivalidade que há décadas mistura futebol, memória histórica e enorme carga emocional.

Leia mais: Semifinal da Copa do Mundo entre Inglaterra e Argentina é classificada como de alto risco pelo FBI

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