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Especialista em inovação e economia criativa. Em sua coluna, explora as transformações da creator economy, novos formatos de mídia e as estratégias comerciais que estão moldando o futuro da comunicação digital.

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O outro lado da Copa: a audiência que os detentores de direitos não controlam

Enquanto Globo e CazéTV concentram as atenções da guerra pela audiência dos jogos ao vivo, a TNT Sports mostra como valor e relevância são formados longe dos ambientes controlados pelos detentores de direitos

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(Print YouTube)

No ar desde o último dia 8, as 11 edições do “Convocados”, incluindo a exibida na manhã desta sexta-feira, já acumulam mais de 1,7 milhão de visualizações no YouTube. O programa é uma das sete IPs criadas pela TNT Sports para compor a grade especial de seu canal temporário durante a Copa do Mundo de Clubes.

O projeto encerra um hiato de oito anos desde o fim do Esporte Interativo, como bem lembrou o perfil FutnaTV no início deste mês.

Desde o anúncio da volta temporária do canal à televisão, parte dos fãs passou a especular sobre uma eventual continuidade da operação após o torneio.

Nesta semana, o próprio FutnaTV chamou atenção para o protagonismo alcançado pelo “Convocados” em meio à polarização das conversas sobre audiência dos jogos entre Globo e CazéTV.

A observação é relevante porque desloca o debate para além da pauta ao redor dos detentores de direitos. Afinal, como um canal que não pode exibir os jogos consegue conquistar espaço em uma Copa marcada justamente pela pulverização da atenção?

A resposta reforça uma outra transformação na economia da mídia esportiva: a disputa por relevância fora do contexto do jogo ao vivo e como ela é dominada dentro do ambiente digital.

E a performance do “Convocados” reafirma esse movimento que dialoga diretamente com uma provocação recente de Ian Whittaker.

Segundo o analista, o principal problema das empresas de mídia não é necessariamente produzir conteúdo relevante. A demanda existe e pode ser observada diariamente nas buscas, nas conversas e no consumo digital. A questão é quem captura esse interesse.

Whittaker argumenta que as emissoras frequentemente financiam audiências que nunca chegam a conhecer. Elas investem na produção, assumem o risco e criam propriedades capazes de mobilizar milhões de pessoas. Porém, quando o público procura por esses conteúdos, grande parte do valor gerado acaba sendo capturada por terceiros: plataformas, agregadores, redes sociais, bancos de dados ou comunidades independentes.

Sob essa perspectiva, o “Convocados” não compete diretamente com uma transmissão, mas pela captura dessa demanda.

Embora não possua os direitos, a TNT ostenta uma marca construída ao longo de décadas junto ao público esportivo e uma equipe editorial capaz de transformar o torneio em assunto diário.

Recupero a análise de Annie Krukowska que trouxe em março para explicar por que a estratégia da TNT, especialmente no universo digital, torna-se relevante.

A televisão tradicional sempre operou a partir do controle. Ou seja, o valor da propriedade intelectual era construído dentro de ambientes monitorados pelas emissoras, que definiam quando, onde e em quais condições o público consumiria determinado conteúdo.

E então veio o YouTube e rompeu com essa lógica.

Seu modelo não depende de controlar o momento do consumo. Pelo contrário. A plataforma captura a atenção antes mesmo de o usuário chegar ao conteúdo. O algoritmo organiza descoberta, interesse e intenção. Aqui, o valor passa a ser formado antes da exibição.

Durante décadas, possuir os direitos significava controlar praticamente toda a cadeia de valor. Hoje, não garante o relacionamento com a audiência.

É por isso que um programa como o Convocados consegue produzir relevância disputando uma camada diferente da cadeia: descoberta, recorrência, hábito e relacionamento.

O produto esportivo continua central, mas a atenção do público está espalhada por dezenas de superfícies ( leia-se: plataformas).

Por acaso, essa discussão apareceu durante o StreamTV Show, realizado nesta semana em Denver, sob idealização de Alan Wolk. Entre as conclusões do evento, uma delas aponta que o futuro da televisão provavelmente será cada vez mais parecido com YouTube e TikTok, com uma oferta praticamente infinita de opções, descoberta mediada por algoritmos e comunidades cada vez mais segmentadas.

No fim, a provocação que Ian Whittaker faz às emissoras também vale para a cadeia esportiva: a demanda existe, a questão maior é quem vai coletá-la, em vez de apenas financiá-la para que outros a capturem.

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