Nos últimos sete dias, 102 transmissões de futebol foram programadas em canais brasileiros no YouTube. A maratona de bola rolando gratuitamente na plataforma inclui desde a nata da Europa, como Champions League, LaLiga e Bundesliga, a torneios alternativos como o Campeonato Escocês.
O levantamento foi feito por Carlos Salvador a partir de um script que varre 12 canais e considerou as lives agendadas entre a última terça e amanhã. CazéTV, Ge TV, N Sports, Sportynet, ESPN, Canal do Benja, UOL Esporte, XSports e GOAT foram alguns dos listados.

Nesta semana, escrevi sobre como o futebol pode ser global na audiência e continuar dependente das fronteiras locais para capturar valor. O Brasil oferece um recorte intrigante dessa discussão. Aqui, propriedades premium passaram a conviver com uma oferta gratuita, formato capitaneado e impulsionado pela CazéTV.
Dado divulgado pelo YouTube antes da Copa, mostra que 56% do consumo de streaming no Brasil já acontece dentro da plataforma. O tempo de consumo esportivo em CTV cresceu mais de 45% no último ano, enquanto o futebol acumulou 3 bilhões de horas vistas em 2025.
Leia mais: A blitzkrieg do YouTube
O esporte encontrou no YouTube um ambiente de alcance massivo e distribuição sem as mesmas barreiras da televisão tradicional. Isso ajuda a explicar por que a plataforma se tornou tão importante para a expansão do futebol gratuito no Brasil.
Ao longo do primeiro semestre, trouxe essa questão dentro de contextos distintos.
O analista Roger Mitchell questionou se o YouTube conseguirá construir um negócio esportivo sustentável ao ocupar simultaneamente a posição de principal camada de distribuição e de gatekeeper do conteúdo, sem assumir necessariamente o custo dos direitos nos moldes tradicionais.
Leia mais: A dieta seletiva do YouTube e a Copa brasileira como caso-limite
A provocação sobre a “dieta rigorosa” da plataforma em direitos, feita pelo Puck News, encontra no Brasil um paradoxo. Enquanto o YouTube demonstra enorme apetite pela audiência esportiva, o mercado brasileiro oferece uma abundância de direitos distribuídos gratuitamente que talvez seja difícil de reproduzir em outros lugares.
Essa peculiaridade brasileira também apareceu em uma conversa recente com Gustavo Coelho, do Prime Video. Segundo ele, colegas da Amazon em outros países “às vezes, não entendem o quão avançado o país já está”. Na sua avaliação, o mercado brasileiro ocupa uma “posição de vanguarda” no cenário esportivo global.
André Barros, Co-CEO da N Sports, chegou a uma conclusão semelhante em entrevista publicada por mim durante a Copa. Em uma visita da FIFA ao escritório da empresa, a entidade perguntou como esse ecossistema deveria funcionar no Brasil.
Para Barros, o país “é um bicho diferente do mundo inteiro quando se trata de consumo digital”. A dificuldade está em acomodar, dentro da mesma estrutura, direito digital aberto, TV paga linear, streaming e, agora, FAST TV. “Ela entra onde? Como compõe essa equação?”
O caso brasileiro coloca em xeque alguns dos modelos internacionais de direitos. Com a oferta gratuita ganhando escala e o acesso pago cada vez mais fragmentado, quanto vale uma propriedade quando a forma de distribuí-la também interfere na percepção de seu valor?