O ministro da Defesa alemão, Boris Pistorius, declarou neste sábado (02/05) que os europeus precisam assumir maior responsabilidade por sua própria segurança, após o Departamento de Defesa dos Estados Unidos anunciar a retirada de 5 mil soldados do território alemão. A decisão ocorre em meio a uma crise diplomática entre Washington e Berlim.
O porta-voz do Pentágono, Sean Parnell, informou que o processo de retirada dos militares deve ser concluído em até 12 meses. A decisão implica que uma brigada completa deixará o país europeu. Um batalhão de ataque de longo alcance previsto para ser enviado ainda este ano será cancelado.
A medida é vista como uma forma de punir Berlim. Na segunda-feira, o chanceler alemão, Friedrich Merz, afirmou que os iranianos estavam “humilhando” os EUA nas negociações para encerrar o conflito, que já dura dois meses. O presidente Donald Trump rebateu a afirmação no dia seguinte. Ele disse que o chanceler não sabia o que estava falando e que a Alemanha estava “indo mal”. Trump publicou em uma rede social que avaliava retirar tropas do território alemão.
Um alto funcionário do Departamento de Defesa, que falou sob condição de anonimato à agência Reuters, classificou as declarações recentes de autoridades alemãs como “inapropriadas e pouco úteis”. “O presidente está reagindo de forma adequada a esses comentários contraproducentes”, comentou.
Contingente militar e presença histórica
A retirada parcial afetará um contingente atual de quase 40 mil soldados americanos alocados na Alemanha, segundo Pistorius. Outras estimativas apontam cerca de 35 mil militares da ativa no país. A Alemanha funciona como a principal base militar dos EUA na Europa. O país abriga a grande base aérea de Ramstein e o hospital de Landstuhl. Ambos são usados pelos EUA para apoiar a guerra no Irã, além de conflitos anteriores no Iraque e no Afeganistão.
A presença militar dos EUA na Alemanha começou como força de ocupação após a Segunda Guerra Mundial. Essa presença atingiu o auge nos anos 1960. Centenas de milhares de militares americanos estavam no país para conter a União Soviética durante a Guerra Fria.
A redução deve levar o número de tropas dos EUA na Europa de volta a níveis próximos aos de antes de 2022, segundo a Reuters. A invasão da Ucrânia pela Rússia levou a um reforço militar ordenado pelo então presidente Joe Biden.
A perda da capacidade de longo alcance será um golpe especialmente duro para Berlim. Ela seria um importante elemento adicional de dissuasão contra a Rússia enquanto os europeus desenvolvem seus próprios mísseis desse tipo. Um batalhão de artilharia de longo alcance que deveria ser enviado ainda neste ano não será mais deslocado, segundo informou a autoridade do Departamento de Defesa à Reuters.
Resposta alemã e planos de defesa
“Os europeus precisam assumir mais responsabilidade por sua própria segurança”, disse Pistorius. Ele acrescentou que “a Alemanha está no caminho certo” ao expandir suas Forças Armadas, acelerar compras militares e investir em infraestrutura.
“Era previsível que os EUA retirassem tropas da Europa, incluindo da Alemanha”, disse ele.
A Alemanha pretende aumentar o número de soldados da ativa das suas forças armadas, a Bundeswehr, dos atuais 185 mil para 260 mil. Críticos do ministro defendem um número ainda maior diante da percepção de ameaça crescente da Rússia.
Os países da Otan se comprometeram a assumir mais responsabilidade por sua própria defesa. Com orçamentos apertados e grandes lacunas de capacidade militar, levará anos para que a região consiga suprir suas necessidades de segurança.
A Otan informou neste sábado (02/05) que está trabalhando com os Estados Unidos para compreender os detalhes da decisão americana. A porta-voz da aliança, Allison Hart, divulgou a informação.
Hart escreveu no X: “Estamos trabalhando com os EUA para entender os detalhes da decisão sobre a presença de forças na Alemanha. Esse ajuste ressalta a necessidade de a Europa continuar investindo mais em defesa e assumir uma parcela maior da responsabilidade por nossa segurança compartilhada” — algo em que já vemos progresso desde que os aliados concordaram em investir 5% do PIB na cúpula da OTAN em Haia no ano passado.
“Continuamos confiantes em nossa capacidade de garantir a dissuasão e a defesa à medida que esse movimento em direção a uma Europa mais forte dentro de uma OTAN mais forte avança”, acrescentou.
Os aliados da Otan concordaram em investir 5% do PIB na cúpula da OTAN em Haia no ano passado.
Na quinta-feira (30/04), Trump confirmou que pretendia retirar tropas da Alemanha. Ele afirmou que pode fazer o mesmo com Espanha e Itália. “Provavelmente vou fazer isso. A Itália não tem ajudado em nada e a Espanha tem sido horrível, absolutamente horrível”, afirmou.
A Alemanha está entre os países da Otan que autorizaram o uso de bases militares para ataques contra o Irã. Trump elogiou a decisão. No início de março, durante visita de Merz à Casa Branca, o presidente disse que o país era um parceiro útil.
Espanha e Itália adotaram postura mais restritiva. No fim de março, o governo espanhol fechou o espaço aéreo para aeronaves americanas envolvidas na guerra. Os italianos negaram o uso de uma base aérea na Sicília em operações de combate.
No início de abril, o jornal The Wall Street Journal revelou que Trump avaliava punir países da Otan por falta de apoio à guerra contra o Irã. Entre as medidas estaria a transferência de tropas para países que apoiaram a ofensiva no Oriente Médio, como Polônia, Romênia, Lituânia e Grécia. O plano também inclui a possibilidade de fechar uma base militar dos EUA na Europa, possivelmente na Espanha ou na Alemanha, segundo o jornal.




