A estratégia global de combate ao terrorismo, publicada pelo governo de Donald Trump às vésperas do aguardado encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, vai muito além de uma simples reorientação diplomática. É, na prática, um ultimato sem precedentes e um ataque direto e frontal à soberania dos países da América Latina, incluindo o Brasil.
Historicamente, nos acostumamos a ver o foco antiterrorista de Washington voltado quase que exclusivamente para o extremismo islâmico no Oriente Médio. Contudo, o documento recém-divulgado pela Casa Branca muda radicalmente esse eixo.
O texto traz um recado cristalino e assustador para a nossa região, citando o Brasil, além de vizinhos como Peru e Equador. A mensagem dos Estados Unidos é simples: eles buscam a cooperação dos governos locais para enfrentar o crime organizado.
Mas o ponto de virada está na cláusula seguinte: se houver recusa em colaborar, os americanos realizarão as ações em nossos territórios “de todo jeito”. Traduzindo do jargão diplomático para o bom e velho português, a política agora é: “Ou você me ajuda, ou eu faço por conta própria dentro da sua casa, quer você queira ou não”.
Como alguém que acompanha as engrenagens da política internacional e os corredores diplomáticos há muitos anos, posso afirmar que essa postura representa uma ruptura brutal no padrão das relações entre os Estados Unidos e o resto do mundo. É a legitimação do intervencionismo e da violação de fronteiras escancarada em um documento oficial de Estado. Uma pressão incomensurável sobre qualquer nação independente.
É exatamente sob a pesada sombra dessa intimidação que a cúpula entre Lula e Trump ocorre hoje (07/05). A pauta de segurança é tão central que o próprio chefe da Polícia Federal brasileira foi escalado para participar das conversas. O Brasil, assim como seus vizinhos, encontra-se agora em uma verdadeira encruzilhada diplomática: como cooperar com o combate ao crime transnacional sem assinar um cheque em branco que autorize a violação do próprio território?
Até o momento, o clima nos bastidores não indica submissão fácil. Segundo fontes com as quais conversei no Itamaraty, o texto das negociações ainda “não está maduro”. Não há expectativa real, ou espaço político, para que um acordo de cooperação completo seja anunciado hoje.
Para bom entendedor, o recado do Itamaraty é que o Brasil tentará ganhar tempo para não ceder à chantagem imediata. O que está em jogo não é apenas uma parceria de segurança, mas a capacidade da América Latina de impor limites a uma superpotência que, em nome de sua própria guerra, acaba de colocar a soberania de seus vizinhos na alça de mira.