A guerra envolvendo os Estados Unidos, Israel e o Irã, iniciada em 28 de fevereiro, atingiu a marca de 60 dias de conflito nesta terça-feira (28/04) e apresenta transformações no xadrez geopolítico mundial.
Em entrevista à TMC, o cientista político e professor de Relações Internacionais da ESPM, Fabio Andrade, analisou essas transformações ocorridas desde o início do período. Segundo ele, o mundo vive um momento de transição desde 2026. Esse momento é caracterizado por mudanças na forma de atuação do poder norte-americano.
Historicamente, os Estados Unidos tinham sua atuação contrabalançada por organizações internacionais como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial, a Organização das Nações Unidas (ONU) e, em algumas ocasiões, pela União Europeia. Essas organizações internacionais perderam poder ao longo do tempo.
Os Estados Unidos enfrentam mudanças internas do ponto de vista econômico e o conflito no Oriente Médio envolve múltiplos interesses difusos entre os atores. Os Estados Unidos têm interesse em trocar o regime do Irã e não desejam que o preço do petróleo fique muito alto. O país conta com apoio de Israel e das comunidades judaicas.
Israel tem questões não apenas com o Irã, mas também com o Líbano. O país enfrenta questões relacionadas à sua sobrevivência. O Irã remete à civilização persa. O país sempre foi uma zona de interesse internacional, com histórico de resistência.
Já o Irã tem parceiros, como o Paquistão, que estão ajudando nas negociações de um cessar-fogo. Tem também parte do Líbano que apoia o país em guerra. Mas além disso, o país enfrenta a questão do grupo xiita libanês Hezbollah.
Desde o início da campanha de guerra dos Estados Unidos, houve sinalizações para interromper o conflito. Acordos foram estabelecidos, mas nenhum deles foi cumprido na íntegra. Fabio Andrade explicou que o não cumprimento dos acordos não ocorre porque os atores são mentirosos, mas porque existem múltiplos interesses e quem assina esses acordos, muitas vezes, não tem como garantir seu cumprimento.
“Não se pode atribuir o problema apenas à mentira, mas aos múltiplos interesses que fazem com que os acordos não tenham credibilidade”, afirmou o professor. Andrade reforçou que quem está do outro lado não pode esperar efetivamente que um acordo resulte em paz. O professor diz ainda não ver sinais de pacificação ou solução para esse conjunto de múltiplos interesses no curto prazo. A recomendação do especialista é de desconfiança.
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Sobre o papel da China no contexto atual, Fabio Andrade observou que o país tem mantido discrição, enquanto a Rússia declarou apoio ao Irã. “A China está ciente de que a diferença bélica ou de armamento em relação aos Estados Unidos é muito expressiva. O país sabe que está em um cenário de disputa com os Estados Unidos. A China não pode assumir isso claramente”, afirma o especialista.
As disputas entre China e Estados Unidos não ocorrem de forma direta. Elas acontecem em alguma região de interesse entre os dois países. O professor avaliou que, até o limite do possível, os chineses vão continuar discretos. O país vai deixar a disputa ocorrer, mas intervindo por debaixo do radar.




