A convenção do PT que oficializou a candidatura de Fernando Haddad ao governo de São Paulo deixou clara a estratégia que deverá conduzir a campanha nos próximos meses: nacionalizar a disputa estadual e transformá-la em um dos principais palcos da eleição presidencial. Em um estado que concentra quase um quarto do eleitorado brasileiro, o objetivo é fazer da corrida paulista uma extensão do embate entre Lula e Flávio Bolsonaro.
O presidente Lula deu o tom dessa estratégia ao transformar a convenção em um ato de campanha presidencial. O discurso foi direcionado ao confronto com Flávio Bolsonaro, reforçando a narrativa de defesa da soberania nacional diante da aproximação do adversário com lideranças internacionais da direita, como Javier Milei.
Haddad seguiu a mesma linha ao buscar associar o governador Tarcísio de Freitas diretamente ao bolsonarismo. A eleição paulista passou a ser apresentada como parte da disputa entre dois projetos nacionais, reduzindo a separação entre o debate estadual e a corrida pelo Palácio do Planalto.
Outro eixo importante da convenção foi a crítica ao programa de privatizações do governo paulista. Haddad aproveitou o desgaste provocado pelos recentes problemas envolvendo a Enel, a Sabesp e, principalmente, a concessão das linhas de trens metropolitanos, após o incêndio e o caos registrado em uma linha recém-privatizada. A intenção foi transformar esses episódios em símbolos das fragilidades do modelo defendido por Tarcísio.
O evento também reforçou a estratégia de construção de uma frente ampla. A presença do vice-presidente Geraldo Alckmin, da ex-ministra Simone Tebet e da ministra Marina Silva buscou transmitir a imagem de uma coalizão mais ampla do que o PT, dialogando com setores de centro e amenizando a percepção de polarização excessiva.
Há ainda um componente estratégico relevante. Caso Tarcísio seja reeleito no primeiro turno, Lula perderá um importante palanque em São Paulo durante a reta final da campanha presidencial. Por outro lado, Flávio Bolsonaro também deixaria de contar com esse espaço eleitoral, reduzindo a vantagem que qualquer um dos lados poderia obter nesse cenário.
Apesar da lógica política da nacionalização, a estratégia também carrega riscos importantes. O principal deles é o cenário eleitoral paulista, que continua amplamente favorável a Tarcísio de Freitas. Além da vantagem nas pesquisas, Haddad enfrenta o desafio histórico do forte antipetismo presente em grande parte do interior do estado, região decisiva para o resultado da eleição.
Outro risco é transformar o próprio candidato em personagem secundário da campanha. Ao concentrar o debate no confronto entre Lula e Flávio Bolsonaro, Haddad pode perder espaço na narrativa eleitoral justamente na disputa em que seu nome deveria ocupar posição central.
A polarização nacional também tende a favorecer Tarcísio. Quanto mais a eleição estadual for interpretada como um capítulo da disputa presidencial, maior a possibilidade de o governador consolidar sua imagem como principal adversário de Lula em São Paulo, fortalecendo sua posição sobretudo no interior, onde já possui desempenho eleitoral consistente.
A convenção mostrou que a nacionalização da campanha não é apenas uma escolha discursiva, mas uma necessidade estratégica diante da importância eleitoral de São Paulo. Resta saber se essa aposta conseguirá ampliar o eleitorado de Haddad ou se acabará reforçando, justamente, o ambiente político mais favorável ao seu principal adversário.