Um avatar de inteligência artificial permitiu que o ex-presidente Jair Bolsonaro fizesse uma aparição surpresa no lançamento da campanha presidencial de seu filho Flávio no sábado (25/07), mesmo estando em prisão domiciliar e impedido pela Justiça de participar da eleição, em um episódio que levantou discussões sobre como a tecnologia pode influenciar a corrida eleitoral de outubro.
“Nenhuma prisão vai calar o sentimento de esperança que despertamos”, disse o avatar durante a convenção nacional do PL, após informar ao público que havia sido criado com IA. “Por isso, peço que recebam com braços abertos a pessoa que eu escolhi para me substituir”, acrescentou.
A iniciativa, prontamente contestada na Justiça por partidos de esquerda, evidenciou um dilema para a campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT): como capitalizar a popularidade de seu pai entre os conservadores enquanto o ex-presidente está proibido de se comunicar publicamente.
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O caso também trouxe uma nova preocupação em relação à IA nas eleições. Enquanto o debate tem se concentrado amplamente em “deepfakes” que espalham desinformação, o episódio de Bolsonaro está testando se a tecnologia pode servir como um substituto para líderes impedidos de se comunicarem diretamente com os eleitores.
Ainda não está claro se a aparição do avatar foi um fato isolado ou o início de uma participação mais ativa de um Bolsonaro virtual na campanha do filho.
Críticos argumentaram que o vídeo violou as regras eleitorais brasileiras porque as mídias sintéticas podem influenciar a vontade dos eleitores, ao mesmo tempo em que, neste caso, ofereceram um atalho às restrições judiciais impostas a Bolsonaro.
O ex-presidente está proibido de fazer manifestações públicas enquanto cumpre prisão domiciliar após sua condenação por tentativa de golpe de Estado após a eleição de 2022, na qual foi derrotado por Lula.
“O que ocorre com a inteligência artificial é que é algo praticamente incontrolável”, disse à agência Reuters o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello, que também presidiu o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Questões sobre a aplicação das restrições
Em uma petição protocolada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no domingo, uma coalizão de partidos de centro-esquerda e de esquerda argumentou que as regras vedam “a utilização de conteúdos sintéticos capazes de reproduzir pessoas reais de forma a influenciar a formação da vontade do eleitor”, citando o potencial persuasivo e manipulador da tecnologia.
Contudo, o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques – nomeado ao STF por Bolsonaro -, evitou condenar a exibição do vídeo. “Usar IA para fazer campanha é lícito, o que não pode é usar para prejudicar alguém”, disse ele ao jornal “O Estado de S. Paulo”.
Nunes Marques declarou que não poderia se pronunciar sobre o caso específico antes que ele seja avaliado pelo tribunal. Ele não respondeu a um pedido de comentário da Reuters.
A regra de IA do tribunal proíbe o uso de conteúdo fabricado ou manipulado na propaganda eleitoral para espalhar informações falsas ou enganosas que possam prejudicar a lisura da eleição ou a integridade do processo eleitoral.
Segundo Ivar Hartmann, professor associado de direito no Insper, em São Paulo, é improvável que Jair Bolsonaro enfrente punições, pois ele pode argumentar que não gravou nem autorizou a mensagem gerada por IA.
A questão mais difícil, segundo Hartmann, é determinar se o vídeo violou as regras eleitorais de uso da IA, embora a defesa possa argumentar que essas restrições se aplicam apenas a conteúdos enganosos que prejudiquem a lisura ou a integridade eleitoral, uma interpretação consistente com as declarações de Nunes Marques.
A equipe de Flávio Bolsonaro não quis comentar o vídeo de IA. Mas o jornal “O Globo” informou que Jair Bolsonaro não havia sido informado com antecedência de que ele seria exibido e que a campanha concluiu que revelar que o vídeo fora gerado por IA fornecia base legal suficiente para seu uso.




