A divulgação da nova pesquisa Genial Quaest trouxe elementos que vão muito além dos números tradicionais de intenção de voto. O levantamento novamente nos ajudou a compreender movimentos muito mais profundos do eleitorado e cria uma comparação importante com a pesquisa anterior, de maio, que muitos avaliavam ter sido prejudicada por não captar o impacto do áudio envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro.
Na prática, porém, aquela rodada acabou funcionando como um marco de comparação entre o sentimento do eleitor antes e depois do episódio, permitindo justamente observar com mais clareza as mudanças provocadas pelos acontecimentos recentes.
O principal destaque está no comportamento dos eleitores que se identificam como independentes. Esse grupo, que historicamente apresenta maior volatilidade, registrou uma mudança significativa na preferência entre Flávio Bolsonaro e Lula. Em maio, Flávio aparecia à frente nesse segmento, com 31% contra 29% do presidente. Agora, Lula passou a liderar por 37% a 24%.
Trata-se de um eleitorado que já demonstrou capacidade de mudar de posição diversas vezes e que costuma responder com mais intensidade a eventos de impacto, positivos ou negativos.
Em 2018, esse grupo rompeu com a polarização tradicional entre PT e PSDB e aderiu majoritariamente à candidatura de Jair Bolsonaro. Já em 2022, diante do desgaste provocado principalmente pela condução da pandemia de Covid-19 e por declarações do então presidente, parte desse eleitorado migrou para Lula.
Em um cenário de forte polarização afetiva entre os dois principais campos – e personagens – políticos e de consolidação dos eleitores mais alinhados à esquerda e à direita, é justamente esse grupo independente que terá papel decisivo na definição do próximo pleito.
Mas nem tudo são espinhos para Flavio…
Apesar da mudança relevante dentre os independentes, este grupo representa “somente” cerca de 10% do eleitorado total. Além disso, os dados não indicam uma transferência ampla de votos de Flávio Bolsonaro para Lula no conjunto do eleitorado.
O movimento observado é principalmente uma migração em direção aos indecisos. Mesmo após um período negativo para o filho “Zero Um” de Jair Bolsonaro — marcado pelo áudio envolvendo Daniel Vorcaro, pelos novos anúncios tarifários dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros após reunião com Donald Trump e pelas críticas às declarações de Eduardo Bolsonaro sobre o Pix — a perda de desempenho foi limitada. Em um eventual segundo turno contra Lula, a queda registrada foi de apenas três pontos percentuais.
Ou seja, mesmo atravessando seu pior momento recente, o filho “abençoado” por Jair permanece competitivo e segue ocupando o espaço de principal nome de oposição ao presidente Lula.
Outro dado relevante reforça a resiliência do campo bolsonarista. Em maio, 90% dos eleitores que se declaravam bolsonaristas afirmavam intenção de votar em Flávio no primeiro turno. Na nova pesquisa, após todos os episódios negativos do período, esse percentual subiu para 92%.
O cenário indica que não existe uma “bala de prata” capaz de provocar grandes oscilações nas intenções de voto em Lula ou Flávio Bolsonaro. Os pisos e tetos eleitorais de cada campo parecem estar bem estabelecidos, com uma base fortemente influenciada por identidade política e vínculo emocional com seus respectivos candidatos.
Para o presidente Lula, os sinais mais positivos aparecem na percepção sobre medidas recentes que afetam diretamente a renda do eleitor.
E vale ressaltar que a pesquisa mostra que o brasileiro ainda não identifica melhora significativa na situação financeira pessoal, no mercado de trabalho, na economia nacional ou nos preços dos supermercados. Apesar disso, programas com impacto direto no bolso começam a alterar gradualmente algumas percepções.
A proposta de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês continua ampliando a percepção de melhora na renda entre os brasileiros. Já o Desenrola 2.0, após cerca de um mês de funcionamento, reduziu de 28% para 23% o percentual de pessoas que afirmam ter muitas dívidas. No mesmo período, subiu para 30% a parcela dos brasileiros que dizem não ter mais dívidas, três pontos percentuais acima do nível registrado desde janeiro.
Também cresce a circulação de notícias positivas relacionadas ao governo, enquanto diminui a percepção de notícias negativas.
Outro dado que chama atenção envolve os eleitores mais jovens, entre 16 e 34 anos. Embora o debate sobre o fim da escala 6×1 ainda esteja em discussão no Senado e não apareça diretamente na pesquisa, o tema pode ajudar a explicar parte das mudanças observadas nesse grupo.
Nesse recorte, Lula passou a liderar contra Flávio Bolsonaro em um eventual primeiro turno, com 36% das intenções de voto, contra 30%. Na pesquisa anterior, realizada em maio, os dois apareciam em empate técnico, na faixa de 33% a 34%.
A própria avaliação do governo nesse recorte reforça essa possibilidade. Entre os jovens, a desaprovação caiu de 55% para 50%, enquanto a aprovação subiu de 41% para 43%.
A discussão sobre o fim da escala 6×1 dialoga com uma geração que atribui peso crescente ao equilíbrio entre vida profissional e pessoal, saúde mental e qualidade de vida — temas que ocupam espaço muito menor (ou sequer ocupam) no debate das gerações anteriores.
No fim, é sempre válido ressaltar que o processo eleitoral é formado majoritariamente por opiniões. Os valores individuais também fazem parte dessa equação, mas tendem a apresentar maior estabilidade ao longo do tempo.
As opiniões, por outro lado, são mais sensíveis aos acontecimentos e podem mudar com maior velocidade. E é justamente esse movimento que as pesquisas revelam quando analisadas ao longo dos meses: as oscilações do eleitorado acompanham os eventos que moldam percepções, enquanto os valores mais profundos permanecem como a base que sustenta os grandes blocos políticos.
Veja a análise completa no YouTube da TMC: