Arthur Igreja
Arthur Igreja Mais sobre o autor

Arthur Igreja é especialista em Tecnologia e Inovação. TEDx speaker e autor do livro “Conveniência é o Nome do Negócio”. Certificações executivas em Harvard e Cambridge. Atuação profissional em mais de 25 países. Anualmente, ministra mais de 150 palestras no Brasil, América do Sul, EUA e Europa. Ele é Masters em International Business pela Georgetown University (EUA), Masters of Business Administration pela ESADE (Espanha) e Mestrado Executivo em Gestão Empresarial pela FGV. Pós-MBA e MBA pela FGV.

Últimas colunas Últimas colunas de Arthur Igreja

Ferrari Luce divide mercado e levanta debate sobre tradição versus inovação

Até que ponto empresas construídas sobre legado e emoção devem acelerar rumo ao futuro elétrico?

Por | Atualizado em:
Ferrari Luce
(Foto: Divulgação/Ferrari)

Na coluna de hoje, vou tratar de um tema extremamente controverso e polêmico. E claro que estou falando do lançamento da Ferrari Luce, o primeiro modelo elétrico da icônica marca italiana de Maranello.

Para quem não estava acompanhando de perto essa história, o que aconteceu foi o seguinte: com todo o avanço da eletrificação mundo afora, inclusive nas pistas, já que a Fórmula 1 hoje trabalha com uma proporção próxima de 50/50 entre motores a combustão e elétricos, a Ferrari decidiu não ficar de fora desse movimento e desenvolveu, ao longo dos últimos anos, a Luce.

Siga o canal da TMC no WhatsApp e receba as últimas notícias

E, para isso, contou inclusive com um supertime de design, entre eles Jonathan Ive, principal designer da Apple na era dourada da empresa, responsável por produtos como iPhone, iPad e diversos outros ícones da tecnologia.

Alguns meses atrás, o interior do carro foi apresentado e já gerou reações bastante divididas. Mas foi nesta semana que tivemos o anúncio oficial e o resultado, considerando a resposta da internet e do mercado, foi praticamente um desastre.

As ações da Ferrari caíram imediatamente cerca de 8%, o que representa algo em torno de R$ 20 bilhões em valor de mercado. E, no acumulado dos últimos 12 meses, a perda já supera R$ 140 bilhões. Vale lembrar que a Ferrari vinha de um excelente momento desde 2020, com forte valorização de suas ações.

A reação, portanto, não foi nada positiva. Muitos memes surgiram, além de comentários dizendo que todo esse tempo foi desperdiçado e que a Ferrari estaria cometendo um enorme equívoco.

De um lado, o CEO da Ferrari afirma que toda grande inovação causa desconforto inicialmente e que, no médio e longo prazo, as pessoas entenderão o propósito desse movimento.

Do outro lado, veio uma reação emblemática de Luca di Montezemolo, um dos principais responsáveis por reerguer a Ferrari nas últimas décadas. E sua opinião foi completamente oposta. Ele chegou a declarar:

“Espero que tirem o cavalinho da marca deste carro. Isso pode ser o começo da destruição da nossa marca.”

Ou seja, uma reação absolutamente negativa.

Os argumentos favoráveis ao projeto são os seguintes: talvez quem esteja reagindo mal não seja, de fato, o público-alvo desse carro. A Ferrari poderia estar mirando um consumidor mais tech, menos ligado ao colecionismo tradicional da marca, menos preocupado com combustível, com o ronco do motor ou com a mecânica clássica de um esportivo italiano.

Seria um consumidor mais jovem, acostumado a carros elétricos, interessado em tecnologia e que agora teria a possibilidade de ter um esportivo elétrico Ferrari.

Outro ponto importante envolve margem de lucro. A Luce deve ser vendida por cerca de € 550 mil e teria uma margem superior a 30%. Ou seja: mesmo vendendo menos unidades, o carro pode gerar muito mais caixa para a empresa. E isso, naturalmente, conversa diretamente com acionistas e mercado financeiro.

Estamos falando, portanto, de um produto potencialmente mais nichado, mas extremamente rentável.

Mais uma vez: é um assunto extremamente polêmico. E apenas o tempo dirá quem estava certo.

Mas eu gostaria de chamar atenção para um aspecto interessante. Assim como estamos vendo um revival dos relógios analógicos depois de um período em que muitos acreditavam que os smartwatches dominariam completamente o mercado, basta lembrar que houve um momento em que o Apple Watch faturava mais do que várias tradicionais marcas suíças somadas, agora vemos novamente uma valorização dos relógios mecânicos, exclusivos e tradicionais. Muitos deles, inclusive, anunciados na própria Fórmula 1.

Será que marcas cujo principal ativo é justamente a tradição deveriam entrar tão fortemente em novos territórios?

Basta observar o que aconteceu recentemente com a Jaguar, que agora luta para tentar reconquistar seu prestígio. A Porsche também anunciou resultados bastante divididos em relação às suas iniciativas 100% elétricas e já começou a rever parte do planejamento.

Em alguns casos, talvez permanecer conectado à tradição, ao passado e ao imaginário que construiu aquela marca ao longo das décadas ainda seja o ativo mais valioso de todos.

Leia mais: Geração Z resgata iPods e sinaliza uma ressaca tecnológica

Ao vivo
São Paulo
Ouça a TMC pelo Brasil
  • 100,1FM São Paulo
  • 101,3FM Rio de Janeiro
  • 100,3FM Curitiba
  • 88,7FM Belo Horizonte
  • 92,7FM Recife
  • 100,1FM Brasília
Notícias que importam para você
Copyright © 2026 CNPJ: 44.060.192/0001-05