O gestor de fundos Vladimir Timerman foi ouvido na CPI do Crime Organizado sobre o escândalo que levou à liquidação do Banco Master. Timerman afirmou que Daniel Vorcaro, ex-controlador formal da instituição, não comandava efetivamente o banco. O depoente apontou o empresário Nelson Tanure como uma das principais figuras por trás da operação fraudulenta.
Timerman relatou ter apresentado denúncias às autoridades desde 2019. O gestor investigou o banco por preocupações com seus próprios investimentos na instituição.
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O gestor sustentou que Vorcaro “era um pau-mandado” de pessoas que permaneciam ocultas no comando efetivo da instituição. Timerman declarou que Vorcaro desconhecia os acontecimentos reais. Segundo o depoente, Vorcaro foi posicionado como representante público do banco para estabelecer conexões políticas. O depoimento foi dado na última quarta-feira (18/03).
A Polícia Federal deflagrou as operações Compliance Zero e Carbono Oculto em 2025 para apurar as fraudes. Timerman explicou o mecanismo utilizado pelos responsáveis: os autores aumentavam artificialmente o patrimônio das instituições financeiras e transferiam os recursos inflados para outros participantes do esquema.
O gestor descreveu que os fraudadores elevavam valores e criavam lucros artificiais. O dinheiro já era desviado antes de entrar no banco. Os balanços aparentavam solidez devido aos valores inflados.
Com a aparência de solidez criada pelos valores inflados, a instituição captava mais CDB. A captação adicional de CDB servia para pagar os CDBs anteriores e manter a operação funcionando.
Timerman citou a superestimação de ativos sem valor do antigo Banco do Estado de Santa Catarina (Besc) como exemplo do mecanismo fraudulento. O Besc foi incorporado pelo Banco do Brasil em 2008.
Retaliações e críticas às autoridades
Timerman afirmou ter sido alvo de “mais de 30 ações criminais e ameaças de morte” como retaliação por suas denúncias. O gestor também sofreu pedidos de prisão.
O convocado criticou a atuação da Comissão de Valores Mobiliários, da Polícia Federal e do Banco Central. Timerman alegou lentidão na investigação das fraudes. O inquérito na CVM levou 473 dias para ser aberto.
O gestor informou que o inquérito policial não avança. Timerman avaliou que todas as instituições falharam. Segundo ele, a Gafisa S.A. representa o laboratório de toda a operação fraudulenta. As denúncias relacionadas à Gafisa ocorreram entre 2019 e 2021.
Impactos do escândalo
O relator da CPI, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), caracterizou como complexa a rede de crimes praticados. Alessandro destacou que o impacto atinge muitos brasileiros de forma concreta.
O senador observou que os números envolvidos parecem distantes da realidade das pessoas. Alessandro afirmou que isso dá a impressão de que não há vítimas. O relator ressaltou que existem milhares, possivelmente milhões de vítimas distribuídas pelo Brasil.
Os investidores que aplicaram no Banco Master e nos fundos afetados pelo escândalo foram impactados. Alessandro Vieira mencionou especialmente os investidores com valores superiores aos R$ 250 mil de ressarcimento previstos no Fundo Garantidor de Crédito.
Timerman apontou outro impacto do escândalo: os bancos tradicionais terão que gastar mais para recompor o FGC. Isso dificultará a concessão de empréstimos para o cidadão comum.
Ausência de ex-servidor do Banco Central
Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-servidor do Banco Central, não compareceu à convocação para depor na quarta-feira (18/03). Alessandro Vieira informou que Souza é suspeito de auxiliar na manipulação do mercado.
O ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça tornou facultativo o comparecimento de Souza. O comparecimento às convocações de CPIs é, em princípio, obrigatório.
O presidente da CPI, senador Fabiano Contarato (PT-ES), lamentou a decisão de Mendonça. Contarato questionou qual seria o sentido de uma comissão parlamentar de inquérito se não é possível proceder à oitiva de testemunha, convocar um investigado nem fazer quebra de sigilo.
Resposta de Nelson Tanure
Nelson Tanure classificou como “ilações” as declarações de Vladimir Timerman à CPI do Crime Organizado. O empresário negou ter qualquer relação com o Banco Master. Tanure afirmou que o depoente “não desfruta de qualquer credibilidade no mercado”.
“O empresário e investidor Nelson Tanure tem décadas de experiência profissional no mercado de valores mobiliários e jamais havia sido acusado de qualquer prática supostamente delitiva no contexto das empresas em que é ou foi acionista. O empresário reitera que nunca foi sócio, controlador ou beneficiário, direto ou indireto, do Banco Master, tendo mantido com a instituição apenas relações comerciais legítimas, como cliente e investidor, nos mesmos moldes em que opera com diversas outras instituições financeiras”, afirmou Tanure em nota.
O depoimento atendeu ao requerimento REQ 210/2026, apresentado pelo senador Alessandro Vieira. As investigações sobre as fraudes no Banco Master prosseguem através das operações Compliance Zero e Carbono Oculto da Polícia Federal.
- Com informações da Agência Senado
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