Jamil Chade
Jamil Chade Mais sobre o autor

Nome de referência no jornalismo internacional, Jamil Chade é jornalista e escritor, com vasta experiência em coberturas globais. Como correspondente internacional, analisa as forças que regem a política mundial, com foco especial nas Nações Unidas e nos temas urgentes que definem as relações entre as grandes potências.

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A trégua de Trump e o preço do caos: o que o cessar-fogo no Oriente Médio esconde

Com o passar do tempo, as guerras saem das primeiras páginas e passamos a acreditar que a vida continua normal, quando ela não continua

Por Jamil Chade | Atualizado em
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, observa o local onde ficava a Ala Leste da Casa Branca, demolida para dar lugar ao futuro salão de baile de Trump, durante reunião com executivos do setor de petróleo na Casa Branca, em Washington, D.C.
Kevin Lamarque/Arquivo/Reuters

Vivemos o drama de uma trégua que, na prática, é ilusória. A poucas horas do fim de um ultimato que ameaçava um ataque avassalador capaz de acabar com uma civilização iraniana, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, prorrogou o cessar-fogo com o Irã por tempo indeterminado.

Contudo, a verdadeira face dessa suposta paz revela-se no sufocamento da economia mundial e no alerta máximo no Estreito de Ormuz, expondo a maior tragédia da nossa geração: até sabemos muito como começar as guerras, mas não temos ideia de como encerrá-las.

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Horas após a prorrogação sem prazo definido, a realidade se impôs pela força. No Estreito de Ormuz, testemunhamos o controle e a detenção de três navios por parte do Irã, sendo dois deles alvo de tiros. Simultaneamente, em Israel, foram reportados casos de violações do cessar-fogo no território libanês. A pergunta que me faço diariamente em Genebra é inevitável: o cessar-fogo existe ou não existe?

A narrativa de Trump tenta justificar o recuo afirmando que a falta de unidade no governo iraniano impediu a apresentação de uma contraproposta de paz. Os iranianos, por sua vez, rebatem dizendo que não há qualquer confiança nos americanos. O fato incontestável é que, após a morte de metade da sua liderança, a nova estrutura de poder no Irã passa por um complexo rearranjo interno que trava negociações.

O impacto dessa indefinição diplomática vai muito além das fronteiras do Oriente Médio, atingindo em cheio a nossa rotina global. O Estreito de Ormuz, uma das artérias centrais do comércio mundial há pelo menos 30 anos, tornou-se um gargalo de incertezas. Estima-se que cerca de 20.000 marinheiros estejam presos em barcos aleatórios na região, impossibilitados de circular.

Enquanto essa artéria central estiver obstruída, o impacto global é imediato. Pela primeira vez, o governo da China reduziu o preço dos combustíveis justamente em resposta a essa crise. Na Europa, o pânico energético é disseminado: vários governos estão retirando impostos sobre combustíveis para controlar os preços e pedindo para que as pessoas voltem a fazer “home office” para evitar a escassez. Na França, o governo tenta acalmar a população dizendo a cada dois dias que não faltará combustível, uma insistência que, ironicamente, soa como a confissão de um problema iminente.

Diante de tudo isso, o que mais me preocupa — um ponto muito bem levantado pelo colega Felipe Bueno durante nossa conversa na TMC 360 — é o risco perigoso da nossa própria imprensa e sociedade normalizarem a barbárie. Com o passar do tempo, as guerras saem das primeiras páginas e passamos a acreditar que a vida continua normal, quando ela não continua.

Vemos isso acontecer na Ucrânia, na Nigéria, no sul do Líbano e em Gaza, onde interrupções militares não significaram o fim da morte ou do sofrimento da população. Enquanto o fluxo político desvia a atenção mundial para as eleições de outros países, a guerra continua o seu curso. Acostumamo-nos a conviver com o inaceitável, assistindo à normalização de um mundo que sangra enquanto finge estar em paz.

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