Brasília se parece cada vez mais com Versailles. A comparação não é gratuita nem meramente retórica: ela revela um distanciamento crescente entre quem exerce o poder e quem vive sob ele. Ao observar os movimentos recentes da elite política e institucional brasileira, a sensação que fica é a de uma corte que já não se preocupa sequer em parecer conectada à realidade do país.
Versailles, símbolo máximo do luxo e da alienação da nobreza francesa às vésperas da Revolução, não caiu apenas pelo excesso, mas pela incapacidade de perceber o abismo que se abria entre o palácio e as ruas. A famosa e possivelmente apócrifa frase atribuída a Maria Antonieta sobre o pão e o brioche pouco importa como fato histórico; o que importa é o que ela representa: uma elite que perdeu completamente a noção do sofrimento popular.
Hoje, Brasília flerta perigosamente com essa mesma lógica. Não se trata da cidade em si, mas das instituições que ali operam e, principalmente, da forma como seus protagonistas se comportam. Há uma sensação difusa, mas persistente, de que os “altos comandos” da República não estão apenas distantes, estão indiferentes à percepção pública. E, na política, a percepção é quase tudo.
Existe uma máxima antiga que deveria ecoar nos corredores do poder: não basta ser honesto, é preciso parecer honesto. O problema é que essa preocupação parece ter sido abandonada. Em seu lugar, surge uma confiança quase inabalável na própria blindagem institucional. Como se o poder, uma vez conquistado, fosse permanente. Como se a crítica fosse irrelevante. Como se a opinião pública fosse apenas um detalhe incômodo.
E então surgem episódios que, independentemente de sua legalidade formal, reforçam essa imagem de distanciamento. Eventos luxuosos, encontros entre figuras do poder, relações pouco transparentes. Não é necessariamente a existência de irregularidades que mais pesa, mas a ausência de cuidado com o que isso comunica. A política, afinal, também é linguagem. E o que se comunica hoje é uma elite confortável demais consigo mesma.
O risco não está apenas no presente, mas no acúmulo. A história mostra que sistemas políticos não entram em crise apenas por decisões erradas, mas por percepções ignoradas. Quando o poder passa a parecer inacessível, intocável e autorreferente, ele deixa de ser visto como legítimo e passa a ser tolerado até que deixe de ser.
E, ainda assim, há um momento em que essa mesma elite desce do palácio: as eleições. É quando o discurso muda, o tom se adapta e o contato com o eleitor se torna, subitamente, essencial. Mas a dúvida permanece: até que ponto esse movimento é suficiente para reconstruir uma confiança que vem sendo corroída pela própria postura cotidiana?
Se Brasília insiste em parecer Versailles, talvez devesse lembrar como essa história terminou. Não como ameaça, mas como advertência histórica. O poder que não se preocupa em ser compreendido, ou ao menos aceito, corre o risco de ser rejeitado. E, quando isso acontece, dificilmente há controle sobre as consequências.
No fim, a questão não é se a comparação é exagerada. É se ela está começando a fazer sentido demais.
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