Um estudo recente divulgado na Pediatrics voltou a acender o alerta entre pesquisadores: o uso intenso de redes sociais e videogames pode afetar de maneiras distintas a atenção de crianças e adolescentes. Segundo os autores, determinados tipos de estímulos digitais — especialmente os mais rápidos e fragmentados — podem estar associados a maior desatenção e dificuldade de foco.
A publicação reforça um debate que já vinha ganhando corpo entre especialistas na área da saúde. Para o psiquiatra Dr. Wimer Bottura, presidente do Comitê de Adolescência da Associação Paulista de Medicina, o fenômeno precisa ser analisado para além do número de horas que uma criança passa diante de uma tela.
“A tela pode gerar dependência. Mas a pergunta é: por que nossa sociedade depende de álcool, de drogas, de telas, de jogos, de séries? Criamos uma sociedade de pessoas com alto potencial de dependência e isso não é natural”, afirmou Bottura, em entrevista à TMC
Raiz do problema não é a tela, é a falta
Para Bottura, o uso excessivo de dispositivos digitais é, muitas vezes, apenas a superfície de questões mais profundas. “Não são as telas que procuram as pessoas, são as pessoas que as procuram. Muitas vezes existem necessidades não supridas nos primeiros anos de vida, e as telas aparecem como soluções inadequadas para essas faltas.”
Ele afirma que o aumento de diagnósticos improvisados de desatenção também preocupa. O estudo da Pediatrics encontrou associações entre tempo de tela e sintomas ligados a TDAH, mas ressalta que há múltiplos fatores envolvidos.
“Muitas manifestações sugerem TDAH, mas em uma consulta bem feita percebemos que o transtorno não existe, embora haja desatenção ou hiperatividade. Esses sintomas podem ser resultado do modo como a criança vive, do ambiente, da rotina — e não de um transtorno clínico.”
Conflitos familiares podem piorar o uso da tela
O psiquiatra lembra que, quando o uso do celular vira motivo de briga, o efeito pode ser justamente o oposto do desejado. “O conflito alimenta a necessidade de fugir para as telas. Precisamos orientar os pais. As telas são parte da vida moderna, mas devem ter um uso intencional e com propósito.”
A leitura e os hobbies como antídoto
Enquanto a pesquisa da Pediatrics reforça que o impacto das telas varia conforme o tipo de conteúdo, especialistas ressaltam outro ponto essencial: a atenção não se desenvolve só desligando a tela, mas ampliando outros estímulos.
A educadora parental Ana Luisa Meirelles, cofundadora da Universidade de Pais, explica que atividades como leitura, arte, esporte e música são fundamentais para o desenvolvimento cognitivo e emocional.
“Quando lemos, ativamos áreas do cérebro que a tela não ativa da mesma forma. A leitura exige concentração, imaginação, processamento mais profundo — elementos fundamentais para atenção e aprendizagem.”
Segundo ela, os hobbies têm um papel ainda maior: “Quando a criança encontra algo que ama fazer, ela constrói identidade, autoestima, resiliência. Aprende a lidar com frustração, desenvolve habilidades sociais e cria vínculos reais.”
O papel dos pais: orientar, não demonizar
A educadora reforça que o controle das telas não deve ser baseado em proibições, mas em intencionalidade. “Vivemos em um mundo digital. O papel dos pais é ser guardião de limites saudáveis: quanto tempo, que tipo de conteúdo, em quais horários, quais ambientes da casa são livres de tela.”
E acrescenta um ponto crucial: “Não adianta pedir para o filho desconectar se o pai está o tempo todo no celular. A criança aprende muito mais pelo exemplo do que pelo discurso.”
Os especialistas concordam: as telas não vão desaparecer do cotidiano. Elas fazem parte da escola, do trabalho, do lazer e das relações sociais. O problema não é a existência delas, mas seu uso sem mediação, sem propósito e sem equilíbrio com experiências reais — leitura, conversa, brincadeira, convivência e vida ao ar livre.
O recado do estudo da Pediatrics, somado às análises dos especialistas, aponta para o mesmo caminho:
crianças precisam de diversidade de estímulos, vínculos afetivos fortes e adultos presentes, não apenas vigilantes, mas orientadores.
Leia mais: Uso de remédios para emagrecer já muda hábitos e faz restaurantes reverem cardápios




