PL da Dosimetria: onde o projeto se encaixa nas mudanças recentes do Código Penal

Proposta que altera cálculo e execução de penas surge após endurecimento de leis contra crimes à democracia e pode ter impacto amplo no sistema penal

Por Redação TMC | Atualizado em
Foto conceitual com livro, algemas e óculos
(Foto: fabrikasimf/Magnific)

O debate sobre o PL da Dosimetria ocorre em meio a uma sequência de mudanças recentes na legislação penal brasileira, especialmente após a criação de novos tipos penais ligados à proteção da democracia e ajustes nas regras de execução de pena. A votação do veto presidencial ao projeto, marcada para esta quinta-feira (30/04), recoloca no centro da discussão como o sistema penal define, calcula e executa punições.

A chamada “dosimetria da pena” é o mecanismo pelo qual o juiz define o tamanho da punição, considerando gravidade do crime, circunstâncias e antecedentes do réu. O PL 2.162/2023 atua exatamente nesse ponto: não cria crimes nem elimina condenações, mas altera a forma de calcular e cumprir penas.

O projeto se insere, portanto, na etapa final do sistema penal — a aplicação e execução da pena — e não na definição dos crimes em si.

Contexto legislativo recente

Nos últimos anos, o Congresso aprovou mudanças relevantes no campo penal, especialmente após episódios de instabilidade institucional. Entre os principais marcos:

  • Criação e fortalecimento de crimes contra o Estado Democrático de Direito (como tentativa de golpe de Estado e abolição violenta da democracia), incorporados ao Código Penal em 2021;
  • Adoção, pelo Judiciário, de interpretações mais rigorosas na punição desses crimes, incluindo a possibilidade de somar penas quando há mais de uma infração;
  • Debates sobre endurecimento ou flexibilização da execução penal, com foco em progressão de regime e tempo de cumprimento de pena.

É nesse cenário que surge o PL da Dosimetria, como uma proposta de recalibrar a resposta penal após esse endurecimento recente.


O que o projeto muda na prática

O texto aprovado pelo Congresso — e vetado integralmente pelo presidente — promove três alterações centrais:

1. Mudança na soma de penas

Hoje, crimes como tentativa de golpe de Estado e abolição violenta podem ter penas somadas.
O projeto propõe aplicar apenas a pena do crime mais grave (com acréscimo), quando ocorrerem no mesmo contexto, o que tende a reduzir o tempo total de condenação.

2. Redução de pena em crimes de multidão

Prevê diminuição de 1/3 a 2/3 da pena para quem participou de atos coletivos, desde que não tenha liderado ou financiado a ação.

3. Alteração na progressão de regime

O texto flexibiliza regras da Lei de Execução Penal, permitindo progressão com cerca de um sexto da pena (16%) em determinadas situações.

Esse último ponto é o mais amplo, pois não se limita a crimes contra a democracia e pode afetar outros condenados.

Por que o projeto gera controvérsia

O PL da Dosimetria é interpretado de duas formas no debate político e jurídico. Defensores afirmam que a proposta corrige penas consideradas excessivas, especialmente nos casos ligados ao 8 de janeiro. Já os críticos alertam que mudanças na execução penal têm efeito geral, podendo beneficiar condenados por crimes graves sem relação com atos antidemocráticos.

O ponto central da controvérsia é que a lei não distingue grupos: uma vez alterada, a regra vale para todo o sistema penal.

Relação com outras mudanças no Código Penal

O projeto dialoga diretamente com alterações recentes:

  • Após a criação de novos crimes contra a democracia, houve aumento potencial das penas, já que diferentes tipos penais podem ser aplicados simultaneamente;
  • O PL atua no sentido oposto, ao limitar a soma dessas penas e criar mecanismos de redução;
  • Na execução penal, a proposta flexibiliza regras que, ao longo dos anos, foram sendo endurecidas para crimes graves.

Em síntese, o projeto representa uma tentativa de reequilibrar o sistema após um ciclo de endurecimento penal.

O que está em jogo na votação do veto

O Congresso decide se mantém ou derruba o veto presidencial. Os cenários são:

  • Se o veto for mantido: o projeto é arquivado e as regras atuais permanecem;
  • Se o veto for derrubado: o texto vira lei e passa a ter efeito imediato.

Mesmo com eventual promulgação:

  • Não há soltura automática de condenados;
  • A aplicação dependerá de decisões judiciais caso a caso;
  • A norma pode ser questionada no Supremo Tribunal Federal (STF).

Impacto no sistema penal

O alcance do PL vai além dos casos políticos que motivaram o debate.
Na prática, ele pode:

  • Reduzir penas já aplicadas;
  • Antecipar progressões de regime;
  • Reabrir discussões em execuções penais em andamento.
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