A frase publicada por Flávio Bolsonaro na última sexta-feira em seu perfil no X — “As mulheres terão um papel fundamental na reconstrução do Brasil” — chamou atenção por ter sido divulgada logo após a repercussão dos vídeos em que Michelle Bolsonaro expôs publicamente um desentendimento com o senador.
À primeira vista, a publicação poderia ser interpretada como um gesto de aproximação com o eleitorado feminino, especialmente diante do desgaste provocado pela crise familiar. No entanto, os bastidores apontam para uma leitura diferente.
Um dos fatores que teriam motivado a reação de Michelle foi a atuação de Daniella Marques, ex-presidente da Caixa Econômica Federal e uma das principais auxiliares de Paulo Guedes no governo Jair Bolsonaro. Anunciada recentemente como assessora econômica da pré-campanha de Flávio Bolsonaro, Daniella também defende pautas voltadas ao público feminino.
O ponto de atrito estaria justamente aí. Michelle preside o PL Mulher e, há anos, constrói sua atuação política voltada ao eleitorado feminino. Nos bastidores, a avaliação é que houve incômodo com a possibilidade de outra liderança assumir protagonismo em uma área considerada estratégica e que sempre esteve sob sua influência, ainda mais sendo uma escolha feita por Flávio Bolsonaro.
Nesse contexto, ganha outro significado o fato de que, logo após destacar a importância das mulheres em sua publicação, Flávio tenha citado justamente Daniella Marques. Em vez de representar uma tentativa de pacificação, o gesto foi interpretado por integrantes do grupo político como uma sinalização de força — ou até mesmo uma provocação.
Durante o fim de semana, também passou a circular entre aliados uma outra interpretação para a divulgação dos vídeos de Michelle. Segundo essa leitura, o movimento poderia representar uma estratégia para diferenciar a imagem da ex-primeira-dama da de Flávio Bolsonaro antes da definição oficial das chapas, prevista para agosto.
A lógica seria preservar Michelle caso surjam fatos que inviabilizem a candidatura do senador, permitindo que ela eventualmente seja lançada sem carregar o desgaste político associado ao irmão mais velho do clã.
Apesar dessas especulações, a preferência de Jair Bolsonaro por Flávio continua sendo explicada menos pelo desempenho eleitoral e mais pela relação de confiança construída ao longo dos anos.
Entre interlocutores do ex-presidente, a percepção é que Flávio não representa necessariamente a candidatura considerada mais competitiva dentro do campo da direita. Ainda assim, é visto como o único nome no qual Jair Bolsonaro deposita confiança absoluta para preservar seu legado político e manter sua influência sobre o movimento bolsonarista.
Essa lógica ajuda a explicar por que outros nomes que surgiram como alternativas nos últimos meses, como o do governador Tarcísio de Freitas, nunca foram encarados como opções naturais dentro do núcleo mais próximo do ex-presidente.
O mesmo raciocínio, segundo integrantes desse grupo, também se aplica a Michelle Bolsonaro, que, embora tenha o sobrenome da família e forte apelo popular, ainda enfrenta resistências dentro do próprio clã em relação ao grau de autonomia política.
Mais do que vencer a próxima eleição presidencial, a prioridade atribuída a Jair Bolsonaro por aliados seria garantir a continuidade do bolsonarismo como principal força de oposição nacional.
Sob essa perspectiva, manter um integrante do próprio núcleo familiar na disputa preservaria a identidade do movimento, manteria viva a polarização política e permitiria ao ex-presidente continuar exercendo protagonismo no cenário eleitoral, independentemente do resultado das urnas.
É justamente essa lógica que ajuda a compreender por que a disputa interna por espaços, protagonismo e influência dentro do bolsonarismo tem ganhado cada vez mais relevância. Mais do que uma divergência pessoal, os episódios recentes expõem uma disputa pelo controle político de um projeto que busca sobreviver para além das eleições de 2026.